1.2. O Problema da Medida

1.2.1 Notação.

Denotamos por ℘⁢(X)\wp(X) o conjuntos de todas as partes de um conjunto XX, por ℚ\mathds{Q} o corpo ordenado dos números racionais e por ℤ\mathds{Z} o anel dos números inteiros.

Queremos investigar a existência de uma função μ:℘⁢(ℝ)→[0,+∞]\mu:\wp(\mathds{R})\to[0,+\infty] satisfazendo as seguintes propriedades:

  • (a)
    ​

    dada uma seqüência (An)n≥1(A_{n})_{n\geq 1} de subconjuntos de ℝ\mathds{R} dois a dois disjuntos então:

    μ⁢(⋃n=1∞An)=∑n=1∞μ⁢(An);\mu\Big{(}\bigcup_{n=1}^{\infty}A_{n}\Big{)}=\sum_{n=1}^{\infty}\mu(A_{n});
  • (b)
    ​

    μ⁢(A+x)=μ⁢(A)\mu(A+x)=\mu(A), para todo A⊂ℝA\subset\mathds{R} e todo x∈ℝx\in\mathds{R}, onde:

    A+x={a+x:a∈A}A+x=\big{\{}a+x:a\in A\big{\}}

    denota a translação de AA por xx;

  • (c)
    ​

    0<μ⁢([0,1])<+∞0<\mu\big{(}[0,1]\big{)}<+\infty.

Nosso objetivo é mostrar que tal função μ\mu não existe. Antes disso, observamos algumas conseqüências simples das propriedades (a), (b) e (c) acima.

1.2.2 Lema.

Se uma função μ:℘⁢(ℝ)→[0,+∞]\mu:\wp(\mathds{R})\to[0,+\infty] satisfaz as propriedades (a), (b) e (c) acima então ela também satisfaz as seguintes propriedades:

  • (d)
    ​

    μ⁢(∅︀)=0\mu(\emptyset)=0;

  • (e)
    ​

    dada uma coleção finita (Ak)k=1n(A_{k})_{k=1}^{n} de subconjuntos de ℝ\mathds{R} dois a dois disjuntos então:

    μ⁢(⋃k=1nAk)=∑k=1nμ⁢(Ak);\mu\Big{(}\bigcup_{k=1}^{n}A_{k}\Big{)}=\sum_{k=1}^{n}\mu(A_{k});
  • (f)
    ​

    se A⊂B⊂ℝA\subset B\subset\mathds{R} então μ⁢(A)≤μ⁢(B)\mu(A)\leq\mu(B);

  • (g)
    ​

    dados a,b∈ℝa,b\in\mathds{R} com a≤ba\leq b então μ⁢([a,b])<+∞\mu\big{(}[a,b]\big{)}<+\infty.

Demonstração.
  • ∙\bullet
    ​

    Prova de (d).

    Tome A1=[0,1]A_{1}=[0,1] e An=∅︀A_{n}=\emptyset para n≥2n\geq 2 na propriedade (a) e use a propriedade (c).

  • ∙\bullet
    ​

    Prova de (e).

    Tome Ak=∅︀A_{k}=\emptyset para k>nk>n e use as propriedades (a) e (d).

  • ∙\bullet
    ​

    Prova de (f).

    Basta observar que a propriedade (e) implica que:

    μ⁢(B)=μ⁢(A)+μ⁢(B∖A),\mu(B)=\mu(A)+\mu(B\setminus A),

    onde μ⁢(B∖A)≥0\mu(B\setminus A)\geq 0.

  • ∙\bullet
    ​

    Prova de (g).

    Seja nn um inteiro positivo tal que b<a+nb<a+n. As propriedades (e) e (f) implicam que:

    μ⁢([a,b])≤μ⁢([a,a+n[)=∑k=0n−1μ⁢([a+k,a+k+1[)≤∑k=0n−1μ⁢([a+k,a+k+1]),\mu\big{(}[a,b]\big{)}\leq\mu\big{(}\left[a,a+n\right[\big{)}=\sum_{k=0}^{n-1}% \mu\big{(}\left[a+k,a+k+1\right[\big{)}\\ \leq\sum_{k=0}^{n-1}\mu\big{(}[a+k,a+k+1]\big{)},

    e as propriedades (b) e (c) implicam que:

    μ⁢([a+k,a+k+1])=μ⁢([0,1])<+∞,\mu\big{(}[a+k,a+k+1]\big{)}=\mu\big{(}[0,1]\big{)}<+\infty,

    para todo kk.∎

Finalmente, mostramos a seguinte:

1.2.3 Proposição.

Não existe uma função μ:℘⁢(ℝ)→[0,+∞]\mu:\wp(\mathds{R})\to[0,+\infty] satisfazendo as propriedades (a), (b) e (c) acima.

Demonstração.

Pelo Lema 1.2.2, as propriedades (a), (b) e (c) implicam as propriedades (d), (e), (f) e (g). Considere a relação binária ∼\sim no intervalo [0,1][0,1] definida por:

x∼y⟺x−y∈ℚ,x\sim y\Longleftrightarrow x-y\in\mathds{Q},

para todos x,y∈[0,1]x,y\in[0,1]. É fácil ver que ∼\sim é uma relação de equivalência em [0,1][0,1]. Seja A⊂[0,1]A\subset[0,1] um conjunto escolha para ∼\sim, i.e., AA possui exatamente um elemento de cada classe de equivalência. Temos então que x−y∉ℚx-y\not\in\mathds{Q}, para todos x,y∈Ax,y\in A com x≠yx\neq y. Em particular, os conjuntos (A+q)q∈ℚ(A+q)_{q\in\mathds{Q}} são dois a dois disjuntos. Note também que para todo x∈[0,1]x\in[0,1] existe y∈Ay\in A com x−y∈ℚx-y\in\mathds{Q}; na verdade, temos x−y∈ℚ∩[−1,1]x-y\in\mathds{Q}\cap[-1,1], já que x,y∈[0,1]x,y\in[0,1]. Segue então que:

[0,1]⊂⋃q∈ℚ∩[−1,1](A+q)⊂[−1,2].[0,1]\subset\!\!\!\!\!\!\!\bigcup_{q\in\mathds{Q}\cap[-1,1]}\!\!\!\!(A+q)% \subset[-1,2].

Como ℚ∩[−1,1]\mathds{Q}\cap[-1,1] é enumerável, as propriedades (a), (b) e (f) implicam:

μ⁢([0,1])≤∑q∈ℚ∩[−1,1]μ⁢(A+q)=∑q∈ℚ∩[−1,1]μ⁢(A)≤μ⁢([−1,2]).\mu\big{(}[0,1]\big{)}\leq\!\!\!\!\!\!\sum_{q\in\mathds{Q}\cap[-1,1]}\!\!\!\mu% (A+q)=\!\!\!\!\!\!\sum_{q\in\mathds{Q}\cap[-1,1]}\!\!\!\mu(A)\leq\mu\big{(}[-1% ,2]\big{)}.

Agora, se μ⁢(A)=0\mu(A)=0 concluímos que μ⁢([0,1])=0\mu\big{(}[0,1]\big{)}=0, contradizendo (c); se μ⁢(A)>0\mu(A)>0 concluímos que μ⁢([−1,2])=+∞\mu\big{(}[-1,2]\big{)}=+\infty, contradizendo (g). ∎