3.6 Momentos exponenciais

Nessa seção desenvolveremos uma outra técnica para estimar a probabilidade de uma variável aleatória se desviar de sua esperança.

Já vimos o método do primeiro, segundo e quarto momento para controlar uma soma de variáveis independentes. Um exemplo disso foi visto na estimativa

P⁢[∑i=1n(Xi−E⁢(Xi))≥a]≤∑i\Var⁢(Xi)a2.P\Big{[}\sum_{i=1}^{n}(X_{i}-E(X_{i}))\geq a\Big{]}\leq\frac{\sum_{i}\Var(X_{i% })}{a^{2}}. (3.68)

Em geral, quanto maior o momento, melhor a estimativa do decaimento para a probabilidade de que uma variável se desvie de sua esperança. Nessa seção iremos para momentos exponenciais, que em um certo sentido produzem estimativas ótimas para o comportamento assintótico da probabilidade de desvio.

Note que se quisermos uma pequena probabilidade de erro (como por exemplo ∼0.01\sim 0.01), o método do segundo momento é muito bom, como veremos posteriormente. Mas se quisermos uma probabilidade de erro minúscula (em situações concretas, algo como 10−1210^{-12} por exemplo), certamente teremos que aumentar bastante o valor de nn, mas quanto? As cotas de segundo momento são muito ruins para esse tipo de estimativa, nos levando a escolher um nn maior que o necessário. Abaixo, desenvolveremos um método mais eficiente para responder a essa pergunta, obviamente sob certas hipóteses na distribuição das variáveis aleatórias.

{definition}

Dada uma variável aleatória XX, definimos sua transformada de Laplace como

ϕX⁢(s)=E⁢(\ex⁢s⁢X)∈(0,∞],\phi_{X}(s)=E(\ex{sX})\in(0,\infty], (3.69)

para todos s∈ℝs\in\mathbb{R}. Essa transformada também é chamada função geradora de momentos de XX.

{exercise}

Calcule a função geradora de momentos das distribuições \Ber⁢(p)\Ber(p), \Exp⁢(λ)\Exp(\lambda) e U[0,1]U_{[0,1]}.

{proposition}

Se E⁢(\ex⁢δ⁢|X|)<∞E(\ex{\delta|X|})<\infty, então

  1.  a)
    ​

    X∈ℒpX\in\mathcal{L}^{p} para todo 1≤p<∞1\leq p<\infty,

  2.  b)
    ​

    ϕX⁢(s)<∞\phi_{X}(s)<\infty para todo s∈(−δ,δ)s\in(-\delta,\delta),

  3.  c)
    ​

    ϕX⁢(s)\phi_{X}(s) é C∞C^{\infty} em (−δ,δ)(-\delta,\delta) e

  4.  d)
    ​

    ϕX(n)⁢(s)=E⁢(Xn⁢\ex⁢s⁢X)\phi_{X}^{(n)}(s)=E(X^{n}\ex{sX}).

A última conclusão da proposição acima justifica a nomenclatura função geradora de momentos pois ϕX(n)⁢(0)=E⁢(Xn)\phi_{X}^{(n)}(0)=E(X^{n}).

Demonstração.

Obviamente, para todo p≥1p\geq 1 existe c>0c>0 tal que \ex⁢δ⁢|x|≥c⁢|x|p\ex{\delta|x|}\geq c|x|^{p}, donde X∈ℒpX\in\mathcal{L}^{p}. Além disso, para todo s∈(−δ,δ)s\in(-\delta,\delta), temos ϕX⁢(s)=E⁢(\ex⁢s⁢X)≤E⁢(\ex⁢δ⁢|X|)<∞\phi_{X}(s)=E(\ex{sX})\leq E(\ex{\delta|X|})<\infty, donde 2. segue imediatamente.

Fixando s∈ℝs\in\mathbb{R}, vamos agora calcular

ϕX⁢(s+h)−ϕX⁢(s)h=E⁢(\ex⁢(s+h)⁢X−\ex⁢s⁢X)h=E⁢(\ex⁢s⁢X⁢\ex⁢h⁢X−1h).\frac{\phi_{X}(s+h)-\phi_{X}(s)}{h}=\frac{E\big{(}\ex{(s+h)X}-\ex{sX}\big{)}}{% h}=E\Big{(}\ex{sX}\frac{\ex{hX}-1}{h}\Big{)}. (3.70)

Lembrando que |1y⁢(ey−1)|≤e|y||\tfrac{1}{y}(e^{y}-1)|\leq e^{|y|}, para todo y∈ℝy\in\mathbb{R}, temos que para todos os h<(δ−|s|)/2h<(\delta-|s|)/2, o integrando acima é dominado por |X|⁢\ex⁢(|s|+h)⁢|X|≤|X|⁢\ex⁢δ+|s|2⁢|X||X|\ex{(|s|+h)|X|}\leq|X|\ex{\smash{\tfrac{\delta+|s|}{2}|X|}} que pertence a ℒ1\mathcal{L}^{1}. Logo podemos usar o Teorema da Convergência Dominada para trocar o limite h→0h\to 0 com a esperança, obtendo

ϕX′⁢(s)=E⁢(X⁢\ex⁢s⁢X).\phi_{X}^{\prime}(s)=E(X\ex{sX}). (3.71)

Note que para todo ε>0\varepsilon>0 e k≥1k\geq 1, |x|k≤c⁢(k)⁢\ex⁢ε⁢|x||x|^{k}\leq c(k)\ex{\varepsilon|x|}, isso nos permite repetir o argumento acima indutivamente para obter c) e d). ∎

Lembramos que ao usar o método do segundo momento, nos foi bastante útil o fato que a variância se comporta bem com relação a somas independentes. Mais precisamente, \Var⁢(X1+⋯+Xk)=\Var⁢(X1)+⋯+\Var⁢(Xk)\Var(X_{1}+\dots+X_{k})=\Var(X_{1})+\dots+\Var(X_{k}).

Uma outra propriedade importante da função geradora de momentos é que ela também se comporta bem com respeito à somas independentes. {proposition} Se X1,…,XnX_{1},\dots,X_{n} são variáveis independentes com ϕXi⁢(s)<∞\phi_{X_{i}}(s)<\infty para todo i≤ki\leq k e |s|<δ|s|<\delta, então

ϕX1+⋯+Xk⁢(s)=ϕX1⁢(s)⁢⋯⁢ϕXk⁢(s), para todos |s|<δ.\phi_{X_{1}+\dots+X_{k}}(s)=\phi_{X_{1}}(s)\dotsm\phi_{X_{k}}(s),\text{ para % todos $|s|<\delta$.} (3.72)
Demonstração.

Basta observar que

E(exp{s(X1+⋯+Xk)})=E(\exsX1⋯\exsXk))=E⁢(\ex⁢s⁢X1)⁢⋯⁢E⁢(\ex⁢s⁢Xk)=ϕX1⁢(s)⁢⋯⁢ϕXk⁢(s),\begin{split}E(\exp&\{s(X_{1}+\dots+X_{k})\})=E(\ex{sX_{1}}\dotsm\ex{sX_{k}}))% \\ &=E\big{(}\ex{sX_{1}})\dotsm E(\ex{sX_{k}}\big{)}=\phi_{X_{1}}(s)\dotsm\phi_{X% _{k}}(s),\end{split} (3.73)

usando Fubini. ∎

Consideraremos agora uma sequência X1,X2,…X_{1},X_{2},\dots de variáveis \iidcom ϕX1⁢(s)<∞\phi_{X_{1}}(s)<\infty para |s|<δ|s|<\delta. Então podemos tentar estimar, para a>0a>0 e |s|<δ|s|<\delta,

P[X1+⋯+Xnn−E(X1)≥a]=P[X1+⋯+Xn≥(a+E(X1))n]=P⁢[\ex⁢s⁢(X1+⋯+Xn)≥\ex⁢s⁢(a+E⁢(X1))⁢n]≤ϕX1+⋯+Xn⁢(s)⁢\ex−s⁢(a+E⁢(X1))⁢n=ϕX1n⁢(s)⁢\ex−s⁢(a+E⁢(X1))⁢n.\begin{split}P\Big{[}&\frac{X_{1}+\dots+X_{n}}{n}-E(X_{1})\geq a\Big{]}=P\Big{% [}X_{1}+\dots+X_{n}\geq(a+E(X_{1}))n\Big{]}\\ &\quad=P\Big{[}\ex{s(X_{1}+\dots+X_{n})}\geq\ex{s(a+E(X_{1}))n}\Big{]}\\ &\quad\leq\phi_{X_{1}+\dots+X_{n}}(s)\ex{-s(a+E(X_{1}))n}=\phi_{X_{1}}^{n}(s)% \ex{-s(a+E(X_{1}))n}.\end{split}

O primeiro fator na estimativa acima pode crescer exponencialmente com nn, enquanto o segundo decresce. Gostaríamos que o comportamento do segundo predominasse, o que podemos concluir do seguinte argumento.

Sabemos que ϕX1⁢(s)\phi_{X_{1}}(s) é diferenciável em zero e que ϕX1′⁢(0)=E⁢(X1)\phi^{\prime}_{X_{1}}(0)=E(X_{1}). Logo, existe s>0s>0 tal que ϕX1⁢(s)<1+(E⁢(X1)+a2)⁢s\phi_{X_{1}}(s)<1+(E(X_{1})+\tfrac{a}{2})s, donde

P[X1+⋯+Xnn−E(X1)≥a]≤ϕX1n(s)\ex−s(a+E(X1))n≤(1+(E⁢(X1)+a2)⁢s)n⁢\ex−s⁢(E⁢(X1)+a)⁢n≤exp⁡{s⁢(E⁢(X1+a2−E⁢(X1)−a)⁢n)}=\ex−s⁢a⁢n/2.\begin{split}P\Big{[}&\frac{X_{1}+\dots+X_{n}}{n}-E(X_{1})\geq a\Big{]}\leq% \phi_{X_{1}}^{n}(s)\ex{-s(a+E(X_{1}))n}\\ &\quad\leq\big{(}1+(E(X_{1})+\frac{a}{2})s\big{)}^{n}\ex{-s(E(X_{1})+a)n}\\ &\quad\leq\exp\Big{\{}s\Big{(}E(X_{1}+\frac{a}{2}-E(X_{1})-a)n\Big{)}\Big{\}}=% \ex{-san/2}.\end{split}

Isso nos garante um decaimento exponencial da probabilidade da média dos XiX_{i} se desviar da esperança.

{exercise}

Aplique o método acima para variáveis XiX_{i} \iidcom distribuição \Ber⁢(1/2)\Ber(1/2) e encontre s⁢(a)s(a) que otimize o decaimento da probabilidade P⁢[∑i=1nXi>(1/2+a)⁢n]P\big{[}\sum_{i=1}^{n}X_{i}>(1/2+a)n\big{]}.

Poderíamos nos perguntar se a cota acima é suficientemente boa. Talvez pudéssemos esperar um decaimento ainda melhor que exponencial. Para responder a essa pergunta, vamos considerar o seguinte exemplo. Sejam (Xi)i≥1(X_{i})_{i\geq 1} variáveis \iidcom X1⁢\distr⁢\Ber⁢(1/2)X_{1}\distr\Ber(1/2). Nesse caso temos por exemplo

P⁢[|X1+⋯+Xnn−12|≥14]≥P⁢[Xi=1,∀i≤n]=2−n.P\Big{[}\big{|}\frac{X_{1}+\dots+X_{n}}{n}-\frac{1}{2}\big{|}\geq\frac{1}{4}% \Big{]}\geq P[X_{i}=1,\forall i\leq n]=2^{-n}. (3.74)

Dessa forma, sabemos que não podemos esperar um decaimento melhor que exponencial, mesmo para variáveis bem simples (como Bernoulli) que satisfazem ϕX⁢(s)<∞\phi_{X}(s)<\infty para todo s∈ℝs\in\mathbb{R}.

Note que para variáveis com distribuição \Ber⁢(1/2)\Ber(1/2), obtivemos acima cotas exponenciais em nn (superior e inferior), mas elas possuem expoentes diferentes. Resta agora tentar entender qual é o expoente correto para o decaimento da probabilidade P⁢[X1+⋯+Xn≥n⁢(E⁢(X1)+a)]P[X_{1}+\dots+X_{n}\geq n(E(X_{1})+a)], o que será feito na próxima seção.

\todosec

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