3.5 Lei {0,1}\{0,1\} de Kolmogorov

Ao estudarmos o Lema de Borel-Cantelli, vimos que se os eventos (Ai)i≥1(A_{i})_{i\geq 1} são independentes então a probabilidade de [Ai⁢ infinitas vezes][A_{i}\text{ infinitas vezes}] somente pode assumir os valores zero ou um (dependendo da somabilidade de P⁢(Ai)P(A_{i})). Nessa seção iremos estudar outros tipos de evento que assumem apenas esses dois valores. Esperamos que esse fenômeno se torne intuitivo ao final dessa discussão.

No que se segue, consideraremos um espaço mensurável Ω=×i=1∞E\Omega=\times_{i=1}^{\infty}E, com a σ\sigma-álgebra canônica ℱ\mathcal{F}, isto é a σ\sigma-álgebra gerada pelas coordenadas canõnicas (Xi)i=1∞(X_{i})_{i=1}^{\infty}. {definition} Dizemos que um evento A∈ℱA\in\mathcal{F} é caudal se

A∈σ⁢(Xi;i≥n), para todo n≥1.A\in\sigma\big{(}X_{i};i\geq n\big{)},\text{ para todo $n\geq 1$}. (3.62)

Também introduzimos a classe ℱ∞\mathcal{F}_{\infty} de tais eventos, que claramente é uma σ\sigma-álgebra, pois pode ser escrita como

ℱ∞=\mcapn≥1⁢σ⁢(Xi;i≥n).\mathcal{F}_{\infty}=\mcap_{n\geq 1}\sigma\big{(}X_{i};i\geq n\big{)}. (3.63)

Chamamos ℱ∞\mathcal{F}_{\infty} de σ\sigma-álgebra caudal.

Vejamos que, dados Ai∈σ⁢(Xi)A_{i}\in\sigma(X_{i}), i≥1i\geq 1, temos que [Ai⁢ infinitas vezes][A_{i}\text{ infinitas vezes}] é caudal. Para tanto, basta observar que para todo n≥1n\geq 1, temos que

[Ai⁢ infinitas vezes]=[#⁢{i≥1;ω∈Ai}=∞]=[#⁢{i≥n;ω∈Ai}=∞],[A_{i}\text{ infinitas vezes}]=\big{[}\#\{i\geq 1;\omega\in A_{i}\}=\infty\big% {]}=\big{[}\#\{i\geq n;\omega\in A_{i}\}=\infty\big{]},

que obviamente pertence a σ⁢(Xi;i≥n)\sigma(X_{i};i\geq n) para todo n≥1n\geq 1.

{exercise}

Mostre que em Ω=ℝ∞\Omega=\mathbb{R}^{\infty}, são caudais os seguintes eventos

  1.  a)
    ​

    [Xi⁢ converge][X_{i}\text{ converge}],

  2.  b)
    ​

    [1n⁢∑i=1nXi⁢ converge]\big{[}\tfrac{1}{n}\sum_{i=1}^{n}X_{i}\text{ converge}\big{]} e

  3.  c)
    ​

    [#⁢{i≥1;Xi>0}<∞][\#\{i\geq 1;X_{i}>0\}<\infty].

Podemos agora enunciar o pricipal teorema dessa seção

{theorem}

[Lei {0,1}\{0,1\} de Kolmogorov] Se Ω=E∞\Omega=E^{\infty}, onde EE é um espaço canônico, for provido de uma lei produto P=⊗i=1∞PiP=\otimes_{i=1}^{\infty}P_{i}, então todo evento caudal tem probabilidade 0 ou 11 sob PP.

Quando uma σ\sigma-álgebra ℱ\mathcal{F} satisfaz P⁢(A)∈{0,1}P(A)\in\{0,1\} para todo A∈ℱA\in\mathcal{F}, dizemos que ℱ\mathcal{F} é trivial. Uma outra maneira de enunciar a conclusão do teorema acima é dizer que a σ\sigma-álgebra caudal ℱ∞\mathcal{F}_{\infty} é trivial.

Demonstração.

A idéia da prova, apesar de soar um pouco estranha, é mostrar que se A∈ℱ∞A\in\mathcal{F}_{\infty}, então AA é independente de si mesmo. Em outras palavras, P⁢(A)=P⁢(A∩A)=P⁢(A)2P(A)=P(A\cap A)=P(A)^{2}, donde P⁢(A)∈{0,1}P(A)\in\{0,1\}. Mas vamos com calma.

Fixe k≥1k\geq 1, A∈ℱ∞A\in\mathcal{F}_{\infty} e B∈σ⁢(X1,…,Xk)B\in\sigma(X_{1},\dots,X_{k}). Nesse caso, como o evento AA pertence a σ⁢(Xk+1,Xk+2,…)\sigma(X_{k+1},X_{k+2},\dots), temos que AA e BB são independentes. Fixe agora A∈ℱ∞A\in\mathcal{F}_{\infty} e considere a classe

ℬA={B∈ℱ; B é independente de A}.\mathcal{B}_{A}=\{B\in\mathcal{F};\text{ $B$ \'{e} independente de $A$}\}. (3.64)

Já sabemos que σ⁢(X1,…,Xk)⊆ℬA\sigma(X_{1},\dots,X_{k})\subseteq\mathcal{B}_{A} para todo k≥1k\geq 1.

Obviamente Ω\Omega é independente de AA, assim como Bc∈ℬAB^{c}\in\mathcal{B}_{A} sempre que B∈ℬAB\in\mathcal{B}_{A}. Além disso, suponha que B1,B2,…B_{1},B_{2},\dots in ℬA\mathcal{B}_{A} são disjuntos, então,

P⁢((\mcupi⁢Bi)∩A)=P⁢(\mcupi⁢(Bi⁢\mcap⁢A))⁢=disj.⁢∑iP⁢(Bi⁢\mcap⁢A)⁢=indep.⁢P⁢(A)⁢P⁢(\mcupi⁢Bi).P\big{(}(\mcup_{i}B_{i})\cap A\big{)}=P\big{(}\mcup_{i}(B_{i}\mcap A)\big{)}% \overset{\text{disj.}}{=}\sum_{i}P(B_{i}\mcap A)\overset{\text{indep.}}{=}P(A)% P(\mcup_{i}B_{i}).

Logo ℬA\mathcal{B}_{A} é um λ\lambda-sistema.

Lembrando que ℬA\mathcal{B}_{A} contém o π\pi-sistema ⋃kσ⁢(X1,…,Xk)\bigcup_{k}\sigma(X_{1},\dots,X_{k}), isto é dos eventos cilíndricos, temos que todos eventos são indepentes de AA, inclusive o próprio AA. Isso termina a prova do teorema. ∎

{exercise}

Dizemos que uma probabilidade PP no espaço produto Ω=×n≥1E\Omega=\times_{n\geq 1}E (com a σ\sigma-álgebra canônica) é fortemente misturadora se, para todo k≥1k\geq 1, temos

limn→∞sup|P⁢(A∩B)−P⁢(A)⁢P⁢(B)|=0,\lim_{n\to\infty}\sup\big{|}P(A\cap B)-P(A)P(B)\big{|}=0, (3.65)

onde o supremo acima é tomado sobre A∈σ⁢(X1,…,Xk)A\in\sigma(X_{1},\dots,X_{k}) e B∈σ⁢(Xn,Xn+1,…)B\in\sigma(X_{n},X_{n+1},\dots). Mostre que nesse caso, a σ\sigma-álgebra dos eventos caudais é trivial.

{exercise}

[Depende de Tópico: Percolação] Considere o grafo G=(ℤ2,E)G=(\mathbb{Z}^{2},E), onde E={{x,y};|x−y|2=1}E=\big{\{}\{x,y\};|x-y|_{2}=1\big{\}}. Dotamos agora o espaço {0,1}E\{0,1\}^{E} com a σ\sigma-álgebra 𝒜\mathcal{A} gerada pelas projeções canônicas Ye⁢(ω)=ω⁢(e)Y_{e}(\omega)=\omega(e), onde ω∈{0,1}E\omega\in\{0,1\}^{E} e e∈Ee\in E. Definimos o conjunto A⊆{0,1}EA\subseteq\{0,1\}^{E} por

A=[existe uma sequência de distintos x0,x1,⋯∈ℤ2,tais que ei={xi,xi+1}∈E e Yei=1 para cada i≥0].A=\Big{[}\begin{array}[]{c}\text{existe uma sequ\^{e}ncia de distintos $x_{0},% x_{1},\dots\in\mathbb{Z}^{2}$,}\\ \text{tais que $e_{i}=\{x_{i},x_{i+1}\}\in E$ e $Y_{e_{i}}=1$ para cada $i\geq 0% $}\end{array}\Big{]}. (3.66)
  1.  a)
    ​

    Mostre que AA é mensurável com respeito a 𝒜\mathcal{A}.

  2.  b)
    ​

    Mostre que AA é um evento caudal, ou seja

    A∈⋂K⊆E; finitoσ⁢(Ye;e∉K).A\in\bigcap_{K\subseteq E;\text{ finito}}\sigma\big{(}Y_{e};e\not\in K\big{)}. (3.67)
  3.  c)
    ​

    Conclua que P⁢(A)∈{0,1}P(A)\in\{0,1\}.

{exercise}

Seja Ω=Eℤ\Omega=E^{\mathbb{Z}} um espaço produto infinito, dotado da σ\sigma-álgebra 𝒜\mathcal{A} gerada pelas projeções canônicas (Xi)i∈ℤ(X_{i})_{i\in\mathbb{Z}}. Consideramos agora em (Ω,𝒜)(\Omega,\mathcal{A}) a medida produto ℙ=P⊗ℤ\mathbb{P}=P^{\otimes\mathbb{Z}}, onde PP é uma probabilidade fixada no espaço polonêns (E,ℬ⁢(E))(E,\mathcal{B}(E)).

  1.  a)
    ​

    Mostre que para qualquer evento A∈𝒜A\in\mathcal{A} e qualquer ε>0\varepsilon>0, existe um k∈ℤ+k\in\mathbb{Z}_{+} e um evento Ak∈σ⁢(Xi,|i|≤k)A_{k}\in\sigma(X_{i},|i|\leq k) tais que ℙ⁢[(A∖Ak)∪(Ak∖A)]<ε\mathbb{P}[(A\setminus A_{k})\cup(A_{k}\setminus A)]<\varepsilon.

  2.  b)
    ​

    Considere o shift θ:Ω→Ω\theta:\Omega\to\Omega dado por θ⁢(ω)⁢(i)=ω⁢(i−1)\theta(\omega)(i)=\omega(i-1) e mostre que se A=θ⁢(A)A=\theta(A), então P⁢(A)∈{0,1}P(A)\in\{0,1\}.