2.7. Mais sobre Convergência de Seqüências de Funções

Recorde que, dado um conjunto XX, uma seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} de funções fn:X→ℝ¯f_{n}:X\to\overline{\mathds{R}} e uma função f:X→ℝ¯f:X\to\overline{\mathds{R}}, dizemos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge pontualmente para ff e escrevemos fn→ff_{n}\to f quando limn→∞fn⁢(x)=f⁢(x)\lim_{n\to\infty}f_{n}(x)=f(x), para todo x∈Xx\in X. Se as funções fnf_{n} e ff tomam valores em ℝ\mathds{R}, isso significa que para todo x∈Xx\in X e todo ε>0\varepsilon>0, existe n0≥1n_{0}\geq 1 (possivelmente dependendo de xx) tal que |fn⁢(x)−f⁢(x)|<ε|f_{n}(x)-f(x)|<\varepsilon, para todo n≥n0n\geq n_{0}; dizemos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para ff e escrevemos fn→uff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f, se para todo ε>0\varepsilon>0 existe n0≥1n_{0}\geq 1 tal que |fn⁢(x)−f⁢(x)|<ε|f_{n}(x)-f(x)|<\varepsilon, para todo n≥n0n\geq n_{0} e todo x∈Xx\in X. Alternativamente, temos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para ff se:

limn→∞supx∈X|fn⁢(x)−f⁢(x)|=0.\lim_{n\to\infty}\sup_{x\in X}\big{|}f_{n}(x)-f(x)\big{|}=0.

Obviamente convergência uniforme implica em convergência pontual.

Em teoria da medida, estamos em geral mais interessados em conceitos que desprezem tudo aquilo que ocorre em conjuntos de medida nula. Recorde que se (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) é um espaço de medida e se (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é uma seqüência de funções fn:X→ℝ¯f_{n}:X\to\overline{\mathds{R}}, então dizemos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge para f:X→ℝ¯f:X\to\overline{\mathds{R}} pontualmente quase sempre e escrevemos fn→ff_{n}\to f q. s. quando existe X′∈𝒜X^{\prime}\in\mathcal{A} tal que μ⁢(X∖X′)=0\mu(X\setminus X^{\prime})=0 e limn→∞fn⁢(x)=f⁢(x)\lim_{n\to\infty}f_{n}(x)=f(x), para todo x∈X′x\in X^{\prime}. Precisamos agora de uma versão da noção de convergência uniforme que ignore conjuntos de medida nula. Temos a seguinte:

2.7.1 Definição.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida, (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função. Dizemos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge para ff uniformemente quase sempre e escrevemos fn→uff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f q. s. se existe X′∈𝒜X^{\prime}\in\mathcal{A} tal que μ⁢(X∖X′)=0\mu(X\setminus X^{\prime})=0 e tal que fn|X′→uf|X′f_{n}|_{X^{\prime}}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f|_{X^{\prime}}.

Evidentemente, convergência uniforme quase sempre implica em convergência pontual quase sempre.

2.7.2 Exemplo.

Seja (An)n≥1(A_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de subconjuntos de ℝ\mathds{R} de medida nula e seja (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} a seqüência de funções fn:ℝ→ℝf_{n}:\mathds{R}\to\mathds{R} definida por fn=χAnf_{n}=\chi_{\lower 2.0pt\hbox{$\scriptstyle A_{n}$}}, para todo n≥1n\geq 1. Temos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente quase sempre para a função nula. De fato, tomando A=⋃n=1∞AnA=\bigcup_{n=1}^{\infty}A_{n} então AA tem medida nula e todas as funções fnf_{n} são identicamente nulas no complementar de AA.

2.7.3 Exemplo.

Seja (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} a seqüência de funções fn:[0,1]→ℝf_{n}:[0,1]\to\mathds{R} definida por fn⁢(x)=xnf_{n}(x)=x^{n}, para todo n≥1n\geq 1 e todo x∈[0,1]x\in[0,1]. Temos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge pontualmente para a função f=χ{1}f=\chi_{\lower 2.0pt\hbox{$\scriptstyle\{1\}$}}. Vamos determinar para quais subconjuntos SS de [0,1][0,1] tem-se fn|S→uf|Sf_{n}|_{S}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f|_{S}. Temos:

|fn⁢(x)−f⁢(x)|={0,se x=1,xn,se x∈[0,1[.\big{|}f_{n}(x)-f(x)\big{|}=\begin{cases}0,&\text{se $x=1$},\\ x^{n},&\text{se $x\in\left[0,1\right[$}.\end{cases}

Daí, se S⊂[0,1]S\subset[0,1] não está contido em {1}\{1\}, temos:

supx∈S|fn⁢(x)−f⁢(x)|=supx∈S∖{1}xn=[sup(S∖{1})]n.\sup_{x\in S}\big{|}f_{n}(x)-f(x)\big{|}=\sup_{x\in S\setminus\{1\}}x^{n}=\big% {[}\sup\big{(}S\setminus\{1\}\big{)}\big{]}^{n}.

Logo fn|S→uf|Sf_{n}|_{S}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f|_{S} se e somente se 11 não é um ponto de acumulação do conjunto SS. Concluímos que não é o caso que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente quase sempre para ff; de fato, se S⊂[0,1]S\subset[0,1] é tal que fn|S→uf|Sf_{n}|_{S}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f|_{S} então [0,1]∖S[0,1]\setminus S contém um intervalo da forma ]1−ε⁢,1[\left]1-\varepsilon,1\right[, ε>0\varepsilon>0, e em particular o conjunto [0,1]∖S[0,1]\setminus S não tem medida nula. Note, no entanto, que para todo ε>0\varepsilon>0 a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para ff em [0,1−ε][0,1-\varepsilon].

Os Exemplos 2.7.2 e 2.7.3 ilustram que a definição de convergência uniforme quase sempre não é tão interessante. A seguinte definição é mais interessante.

2.7.4 Definição.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida, (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função. Dizemos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge para ff quase uniformemente e escrevemos fn→quff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f se para todo ε>0\varepsilon>0 existe A∈𝒜A\in\mathcal{A} tal que μ⁢(A)<ε\mu(A)<\varepsilon e fn|Ac→uf|Acf_{n}|_{A^{\mathrm{c}}}\xrightarrow{\;\mathrm{u}\;}f|_{A^{\mathrm{c}}}.

Evidentemente, convergência uniforme quase sempre implica em convergência quase uniforme.

2.7.5 Exemplo.

A seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} do Exemplo 2.7.3 converge quase uniformemente para ff, mas não converge uniformemente quase sempre.

2.7.6 Lema.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida, (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função. Se fn→quff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f então fn→ff_{n}\to f pontualmente quase sempre.

Demonstração.

Para todo k≥1k\geq 1, existe Ak⊂XA_{k}\subset X mensurável com μ⁢(Ak)<1k\mu(A_{k})<\frac{1}{k} tal que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para ff em AkcA_{k}^{\mathrm{c}}. Daí limn→∞fn⁢(x)=f⁢(x)\lim_{n\to\infty}f_{n}(x)=f(x) para todo x∈⋃k=1∞Akcx\in\bigcup_{k=1}^{\infty}A_{k}^{\mathrm{c}}; mas:

⋃k=1∞Akc=(⋂k=1∞Ak)c\bigcup_{k=1}^{\infty}A_{k}^{\mathrm{c}}=\Big{(}\bigcap_{k=1}^{\infty}A_{k}% \Big{)}^{\mathrm{c}}

e obviamente μ⁢(⋂k=1∞Ak)=0\mu\big{(}\bigcap_{k=1}^{\infty}A_{k}\big{)}=0. Logo (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge para ff pontualmente quase sempre. ∎

Para espaços de medida finita, temos o surpreendente fato de que a recíproca do Lema 2.7.6 é válida.

2.7.7 Teorema (Egoroff).

Seja (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida e sejam (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções mensuráveis fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função mensurável. Se μ⁢(X)<+∞\mu(X)<+\infty e fn→ff_{n}\to f pontualmente quase sempre então fn→quff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f.

Demonstração.

Se x∈Xx\in X é tal que limn→∞fn⁢(x)=f⁢(x)\lim_{n\to\infty}f_{n}(x)=f(x) então para todo k≥1k\geq 1 existe n0≥1n_{0}\geq 1 tal que |fn⁢(x)−f⁢(x)|<1k|f_{n}(x)-f(x)|<\frac{1}{k}, para todo n≥n0n\geq n_{0}; em outras palavras, para todo k≥1k\geq 1, xx pertence ao conjunto:

⋃n0=1∞⋂n=n0∞{y∈X:|fn⁢(y)−f⁢(y)|<1k}.\bigcup_{n_{0}=1}^{\infty}\bigcap_{n=n_{0}}^{\infty}\big{\{}y\in X:\big{|}f_{n% }(y)-f(y)\big{|}<\tfrac{1}{k}\big{\}}. (2.7.1)

Como fn→ff_{n}\to f q. s., vemos que o complementar de (2.7.1) tem medida nula, para todo k≥1k\geq 1; esse complementar é igual a:

⋂n0=1∞⋃n=n0∞{y∈X:|fn⁢(y)−f⁢(y)|≥1k}.\bigcap_{n_{0}=1}^{\infty}\bigcup_{n=n_{0}}^{\infty}\big{\{}y\in X:\big{|}f_{n% }(y)-f(y)\big{|}\geq\tfrac{1}{k}\big{\}}.

Temos que a seqüência de conjuntos ⋃n=n0∞{y∈X:|fn⁢(y)−f⁢(y)|≥1k}\bigcup_{n=n_{0}}^{\infty}\big{\{}y\in X\!:\!|f_{n}(y)-f(y)|\geq\frac{1}{k}% \big{\}} (indexada em n0n_{0}) é decrescente e portanto, como μ⁢(X)<+∞\mu(X)<+\infty, temos (Lema 1.4.48):

limn0→∞μ⁢(⋃n=n0∞{y∈X:|fn⁢(y)−f⁢(y)|≥1k})=0.\lim_{n_{0}\to\infty}\mu\Big{(}\bigcup_{n=n_{0}}^{\infty}\big{\{}y\in X:\big{|% }f_{n}(y)-f(y)\big{|}\geq\tfrac{1}{k}\big{\}}\Big{)}=0. (2.7.2)

Seja ε>0\varepsilon>0 fixado. De (2.7.2), segue que para cada k≥1k\geq 1 podemos encontrar nk≥1n_{k}\geq 1 tal que μ⁢(Ak)<ε2k\mu(A_{k})<\frac{\varepsilon}{2^{k}}, onde:

Ak=⋃n=nk∞{y∈X:|fn⁢(y)−f⁢(y)|≥1k}.A_{k}=\bigcup_{n=n_{k}}^{\infty}\big{\{}y\in X:\big{|}f_{n}(y)-f(y)\big{|}\geq% \tfrac{1}{k}\big{\}}.

Seja A=⋃k=1∞AkA=\bigcup_{k=1}^{\infty}A_{k}; temos μ⁢(A)≤∑k=1∞μ⁢(Ak)<ε\mu(A)\leq\sum_{k=1}^{\infty}\mu(A_{k})<\varepsilon. Afirmamos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para ff em AcA^{\mathrm{c}}. De fato, para todo k≥1k\geq 1 e todo x∈Acx\in A^{\mathrm{c}} temos que x∉Akx\not\in A_{k}, o que significa que |fn⁢(x)−f⁢(x)|<1k|f_{n}(x)-f(x)|<\frac{1}{k}, para todo n≥nkn\geq n_{k}. Isso completa a demonstração. ∎

2.7.8 Exemplo.

Seja (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} a seqüência de funções fn:ℝ→ℝf_{n}:\mathds{R}\to\mathds{R} definida por:

fn⁢(x)=xn,f_{n}(x)=\frac{x}{n},

para todo x∈ℝx\in\mathds{R} e todo n≥1n\geq 1. Temos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge pontualmente para a função nula. Dado S⊂ℝS\subset\mathds{R}, então:

supx∈S|fn⁢(x)|=1n⁢supx∈S|x|,\sup_{x\in S}\big{|}f_{n}(x)\big{|}=\frac{1}{n}\sup_{x\in S}|x|,

donde (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para a função nula em SS se e somente se o conjunto SS é limitado. Mas se A⊂ℝA\subset\mathds{R} tem medida finita então S=AcS=A^{\mathrm{c}} não pode ser limitado, pois se SS é limitado então A=ScA=S^{\mathrm{c}} contém um intervalo ilimitado. Logo não é o caso que fn→quff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f, embora fn→ff_{n}\to f pontualmente. Note que não temos uma contradição com o Teorema 2.7.7, já que ℝ\mathds{R} não tem medida finita.

2.7.9 Definição.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida, (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções mensuráveis fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função mensurável. Dizemos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge para ff em medida e escrevemos fn→𝜇ff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{\mu}\;}f se para todo ε>0\varepsilon>0 temos:

limn→∞μ⁢({x∈X:|fn⁢(x)−f⁢(x)|≥ε})=0.\lim_{n\to\infty}\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n}(x)-f(x)\big{|}\geq% \varepsilon\big{\}}\Big{)}=0. (2.7.3)
2.7.10 Lema.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida, (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções mensuráveis fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função mensurável. Se fn→quff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f então fn→𝜇ff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{\mu}\;}f.

Demonstração.

Seja ε>0\varepsilon>0 dado e provemos (2.7.3). Como fn→quff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f, para todo η>0\eta>0 dado, existe um conjunto mensurável AA com μ⁢(A)<η\mu(A)<\eta tal que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge uniformemente para ff em AcA^{\mathrm{c}}; daí, existe n0≥1n_{0}\geq 1 tal que |fn⁢(x)−f⁢(x)|<ε|f_{n}(x)-f(x)|<\varepsilon, para todo x∈Acx\in A^{\mathrm{c}} e todo n≥n0n\geq n_{0}. Temos então:

{x∈X:|fn⁢(x)−f⁢(x)|≥ε}⊂A,\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n}(x)-f(x)\big{|}\geq\varepsilon\big{\}}\subset A,

para todo n≥n0n\geq n_{0}, donde:

μ⁢({x∈X:|fn⁢(x)−f⁢(x)|≥ε})<η,\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n}(x)-f(x)\big{|}\geq\varepsilon\big{\}}% \Big{)}<\eta,

para todo n≥n0n\geq n_{0}. Isso completa a demonstração. ∎

2.7.11 Exemplo.

A recíproca do Lema 2.7.10 não é verdadeira; na verdade, convergência em medida não implica sequer convergência pontual quase sempre. De fato, seja (In)n≥1(I_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de intervalos contidos em [0,1][0,1] de modo que:

  • •
    ​

    limn→∞𝔪⁢(In)=0\lim_{n\to\infty}\mathfrak{m}(I_{n})=0;

  • •
    ​

    para todo x∈[0,1]x\in[0,1], existem infinitos índices nn com x∈Inx\in I_{n} e infinitos índices nn com x∉Inx\not\in I_{n}.

Por exemplo, uma possível seqüência (In)n≥1(I_{n})_{n\geq 1} é:

[0,1],[0,12],[12⁢,1],[0,13],[13,23],[23⁢,1],…,[0,1k],[1k,2k],[2k,3k],…,[ik,i+1k],…,[k−1k⁢,1],…[0,1],\big{[}0,\tfrac{1}{2}\big{]},\big{[}\tfrac{1}{2},1\big{]},\big{[}0,% \tfrac{1}{3}\big{]},\big{[}\tfrac{1}{3},\tfrac{2}{3}\big{]},\big{[}\tfrac{2}{3% },1\big{]},\ldots,\\ \big{[}0,\tfrac{1}{k}\big{]},\big{[}\tfrac{1}{k},\tfrac{2}{k}\big{]},\big{[}% \tfrac{2}{k},\tfrac{3}{k}\big{]},\ldots,\big{[}\tfrac{i}{k},\tfrac{i+1}{k}\big% {]},\ldots,\big{[}\tfrac{k-1}{k},1\big{]},\ldots

Seja (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} a seqüência de funções fn:[0,1]→ℝf_{n}:[0,1]\to\mathds{R} definida por fn=χInf_{n}=\chi_{\lower 2.0pt\hbox{$\scriptstyle I_{n}$}}, para todo n≥1n\geq 1. Afirmamos que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge em medida para a função nula. De fato, fixado ε>0\varepsilon>0 então:

{x∈[0,1]:|fn⁢(x)|≥ε}⊂In,\big{\{}x\in[0,1]:\big{|}f_{n}(x)\big{|}\geq\varepsilon\big{\}}\subset I_{n},

e limn→∞𝔪⁢(In)=0\lim_{n\to\infty}\mathfrak{m}(I_{n})=0. Logo fn→𝜇0f_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{\mu}\;}0. No entanto, para todo x∈[0,1]x\in[0,1], temos que a seqüência (fn⁢(x))n≥1\big{(}f_{n}(x)\big{)}_{n\geq 1} possui uma subseqüência constante e igual a zero e uma subseqüência constante e igual a 11; logo (fn⁢(x))n≥1\big{(}f_{n}(x)\big{)}_{n\geq 1} não converge para nenhum ponto x∈[0,1]x\in[0,1].

A recíproca do Lema 2.7.10 não vale, mas temos o seguinte:

2.7.12 Lema.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida, (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções mensuráveis fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} e f:X→ℝf:X\to\mathds{R} uma função mensurável. Se fn→𝜇ff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{\mu}\;}f então existe uma subseqüência (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} de (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} tal que fnk→quff_{n_{k}}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f; em particular, pelo Lema 2.7.6, fnk→ff_{n_{k}}\to f q. s..

Demonstração.

Vamos contruir indutivamente uma seqüência de índices (nk)k≥1(n_{k})_{k\geq 1} tal que n1<n2<⋯n_{1}<n_{2}<\cdots e tal que:

μ⁢({x∈X:|fnk⁢(x)−f⁢(x)|≥1k})<12k,\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n_{k}}(x)-f(x)\big{|}\geq\tfrac{1}{k}\big{% \}}\Big{)}<\frac{1}{2^{k}},

para todo k≥1k\geq 1. Como fn→𝜇ff_{n}\xrightarrow{\;\mathrm{\mu}\;}f, podemos escolher n1≥1n_{1}\geq 1 tal que:

μ⁢({x∈X:|fn1⁢(x)−f⁢(x)|≥1})<12;\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n_{1}}(x)-f(x)\big{|}\geq 1\big{\}}\Big{)}<% \frac{1}{2};

supondo nkn_{k} já definido, podemos escolher nk+1>nkn_{k+1}>n_{k} tal que:

μ⁢({x∈X:|fnk+1⁢(x)−f⁢(x)|≥1k+1})<12k+1.\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n_{k+1}}(x)-f(x)\big{|}\geq\tfrac{1}{k+1}% \big{\}}\Big{)}<\frac{1}{2^{k+1}}.

Obtemos assim a seqüência (nk)k≥1(n_{k})_{k\geq 1} com as propriedades desejadas. Vamos mostrar que fnk→quff_{n_{k}}\xrightarrow{\;\mathrm{qu}\;}f. Dado ε>0\varepsilon>0, devemos encontrar um conjunto mensurável AA de medida menor que ε\varepsilon, de modo que (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} converge uniformemente para ff em AcA^{\mathrm{c}}. Seja t≥1t\geq 1 de modo que:

∑k=t∞12k=12t−1≤ε,\sum_{k=t}^{\infty}\frac{1}{2^{k}}=\frac{1}{2^{t-1}}\leq\varepsilon,

e tome:

A=⋃k=t∞{x∈X:|fnk⁢(x)−f⁢(x)|≥1k};A=\bigcup_{k=t}^{\infty}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n_{k}}(x)-f(x)\big{|}\geq% \tfrac{1}{k}\big{\}};

daí μ⁢(A)<∑k=t∞12k≤ε\mu(A)<\sum_{k=t}^{\infty}\frac{1}{2^{k}}\leq\varepsilon. Para x∈Acx\in A^{\mathrm{c}} e k≥tk\geq t, temos |fnk⁢(x)−f⁢(x)|<1k|f_{n_{k}}(x)-f(x)|<\frac{1}{k} e portanto:

supx∈Ac|fnk⁢(x)−f⁢(x)|≤1k,\sup_{x\in A^{\mathrm{c}}}\big{|}f_{n_{k}}(x)-f(x)\big{|}\leq\frac{1}{k},

para todo k≥tk\geq t. Segue então que (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} converge uniformemente para ff em AcA^{\mathrm{c}}. ∎

A cada uma das noções de convergência que consideramos até agora está associada uma correspondente noção de seqüência de Cauchy. Enunciamos a seguinte:

2.7.13 Definição.

Seja XX um conjunto e (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R}. Dizemos que:

  • •
    ​

    a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é pontualmente de Cauchy se para todo x∈Xx\in X a seqüência (fn⁢(x))n≥1\big{(}f_{n}(x)\big{)}_{n\geq 1} é de Cauchy em ℝ\mathds{R};

  • •
    ​

    a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é uniformemente de Cauchy se para todo ε>0\varepsilon>0 existe n0≥1n_{0}\geq 1 tal que |fn⁢(x)−fm⁢(x)|<ε|f_{n}(x)-f_{m}(x)|<\varepsilon, para todos n,m≥n0n,m\geq n_{0} e todo x∈Xx\in X.

Se (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) é um espaço de medida, dizemos que:

  • •
    ​

    a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é pontualmente de Cauchy quase sempre se para quase todo x∈Xx\in X a seqüência (fn⁢(x))n≥1\big{(}f_{n}(x)\big{)}_{n\geq 1} é de Cauchy em ℝ\mathds{R}, i.e., se existe X′∈𝒜X^{\prime}\in\mathcal{A} com μ⁢(X∖X′)=0\mu(X\setminus X^{\prime})=0 tal que (fn⁢(x))n≥1\big{(}f_{n}(x)\big{)}_{n\geq 1} é de Cauchy em ℝ\mathds{R} para todo x∈X′x\in X^{\prime};

  • •
    ​

    a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é uniformemente de Cauchy quase sempre se existe X′∈𝒜X^{\prime}\in\mathcal{A} tal que μ⁢(X∖X′)=0\mu(X\setminus X^{\prime})=0 e tal que a seqüência (fn|X′)n≥1(f_{n}|_{X^{\prime}})_{n\geq 1} é uniformemente de Cauchy;

  • •
    ​

    a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é quase uniformemente de Cauchy se para todo ε>0\varepsilon>0 existe A∈𝒜A\in\mathcal{A} com μ⁢(A)<ε\mu(A)<\varepsilon de modo que a seqüência (fn|Ac)n≥1(f_{n}|_{A^{\mathrm{c}}})_{n\geq 1} é uniformemente de Cauchy.

Supondo também que as funções fnf_{n} são todas mensuráveis, dizemos que a seqüência (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é de Cauchy em medida se para todo ε>0\varepsilon>0 e todo η>0\eta>0, existe n0≥1n_{0}\geq 1 tal que:

μ⁢({x∈X:|fn⁢(x)−fm⁢(x)|≥ε})<η,\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n}(x)-f_{m}(x)\big{|}\geq\varepsilon\big{\}% }\Big{)}<\eta,

para todos n,m≥n0n,m\geq n_{0}.

Evidentemente, toda seqüência uniformemente de Cauchy (resp., quase sempre) é pontualmente de Cauchy (resp., quase sempre) e toda seqüência pontualmente convergente (resp., quase sempre) é pontualmente de Cauchy (resp., quase sempre). Além do mais, se (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é uma seqüência pontualmente de Cauchy então existe uma (única) função ff tal que fn→ff_{n}\to f pontualmente. Outras propriedades simples dos vários tipos de seqüências de Cauchy definidos acima são exploradas nos Exercícios 2.34, 2.35, 2.36, 2.37, 2.38, 2.39.

Temos a seguinte versão do Lema 2.7.12 para seqüências de Cauchy.

2.7.14 Lema.

Sejam (X,𝒜,μ)(X,\mathcal{A},\mu) um espaço de medida e (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} uma seqüência de funções mensuráveis fn:X→ℝf_{n}:X\to\mathds{R} que seja de Cauchy em medida. Então existe uma subseqüência (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} de (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} que é quase uniformemente de Cauchy; em particular, pelo resultado dos Exercícios 2.34, 2.35 e 2.36, (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} converge quase uniformemente (e também converge pontualmente quase sempre) para uma função mensurável f:X→ℝf:X\to\mathds{R}.

Demonstração.

Vamos contruir indutivamente uma seqüência de índices (nk)k≥1(n_{k})_{k\geq 1} tal que n1<n2<⋯n_{1}<n_{2}<\cdots e tal que:

μ⁢({x∈X:|fnk⁢(x)−fnk+1⁢(x)|≥12k})<12k,\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n_{k}}(x)-f_{n_{k+1}}(x)\big{|}\geq\tfrac{1% }{2^{k}}\big{\}}\Big{)}<\frac{1}{2^{k}}, (2.7.4)

para todo k≥1k\geq 1. Como (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é de Cauchy em medida, podemos escolher n1≥1n_{1}\geq 1 tal que:

μ⁢({x∈X:|fn⁢(x)−fm⁢(x)|≥12})<12,\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n}(x)-f_{m}(x)\big{|}\geq\tfrac{1}{2}\big{% \}}\Big{)}<\frac{1}{2},

para todos n,m≥n1n,m\geq n_{1}. Supondo nkn_{k} já definido, escolhemos nk+1>nkn_{k+1}>n_{k} tal que:

μ⁢({x∈X:|fn⁢(x)−fm⁢(x)|≥12k+1})<12k+1,\mu\Big{(}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n}(x)-f_{m}(x)\big{|}\geq\tfrac{1}{2^{k+1}}% \big{\}}\Big{)}<\frac{1}{2^{k+1}},

para todos n,m≥nk+1n,m\geq n_{k+1}. É fácil ver que a seqüência (nk)n≥1(n_{k})_{n\geq 1} assim construída satisfaz (2.7.4), para todo k≥1k\geq 1. Vamos mostrar que a seqüência (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} é quase uniformemente de Cauchy. Seja dado ε>0\varepsilon>0; escolha t≥1t\geq 1 com:

∑k=t∞12k=12t−1≤ε\sum_{k=t}^{\infty}\frac{1}{2^{k}}=\frac{1}{2^{t-1}}\leq\varepsilon

e defina:

A=⋃k=t∞{x∈X:|fnk⁢(x)−fnk+1⁢(x)|≥12k}.A=\bigcup_{k=t}^{\infty}\big{\{}x\in X:\big{|}f_{n_{k}}(x)-f_{n_{k+1}}(x)\big{% |}\geq\tfrac{1}{2^{k}}\big{\}}.

Claramente, μ⁢(A)<∑k=t∞12k≤ε\mu(A)<\sum_{k=t}^{\infty}\frac{1}{2^{k}}\leq\varepsilon. Vamos mostrar que a seqüência (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} é uniformemente de Cauchy em AcA^{\mathrm{c}}. Se x∈Acx\in A^{\mathrm{c}} então:

|fnk⁢(x)−fnk+1⁢(x)|<12k,\big{|}f_{n_{k}}(x)-f_{n_{k+1}}(x)\big{|}<\frac{1}{2^{k}},

para todo k≥tk\geq t. Daí, se l≥k≥tl\geq k\geq t, temos:

|fnk⁢(x)−fnl⁢(x)|≤∑i=kl−1|fni⁢(x)−fni+1⁢(x)|≤∑i=kl−112i<∑i=k∞12i=12k−1,\big{|}f_{n_{k}}(x)-f_{n_{l}}(x)\big{|}\leq\sum_{i=k}^{l-1}\big{|}f_{n_{i}}(x)% -f_{n_{i+1}}(x)\big{|}\leq\sum_{i=k}^{l-1}\frac{1}{2^{i}}<\sum_{i=k}^{\infty}% \frac{1}{2^{i}}=\frac{1}{2^{k-1}},

para todo x∈Acx\in A^{\mathrm{c}}. Conclui-se então que a seqüência (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} é uniformemente de Cauchy em AcA^{\mathrm{c}}; de fato, dado η>0\eta>0, escolhemos k0≥tk_{0}\geq t com 12k0−1≤η\frac{1}{2^{k_{0}-1}}\leq\eta e daí:

|fnk⁢(x)−fnl⁢(x)|<12k0−1≤η,\big{|}f_{n_{k}}(x)-f_{n_{l}}(x)\big{|}<\frac{1}{2^{k_{0}-1}}\leq\eta,

para todo x∈Acx\in A^{\mathrm{c}} e todos k,l≥k0k,l\geq k_{0}. ∎

2.7.15 Corolário.

Toda seqüência de Cauchy em medida de funções mensuráveis converge em medida para alguma função mensurável.

Demonstração.

Se (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} é de Cauchy em medida então, pelo Lema 2.7.14, existe uma subseqüência (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} que converge quase uniformemente para uma função mensurável ff. Mas, pelo Lema 2.7.10, isso implica que (fnk)k≥1(f_{n_{k}})_{k\geq 1} converge em medida para ff. Segue então do resultado do Exercício 2.40 que (fn)n≥1(f_{n})_{n\geq 1} converge em medida para ff. ∎