2.4 Composição, contradomínio e imagem

Suponha que se queira obter o valor de sen⁡(π2)\operatorname{sen}(\pi^{2}) com uma calculadora. Como uma calculadora possui em geral as duas funções (⋅)2(\cdot)^{2} e sen⁡(⋅)\operatorname{sen}(\cdot), calculemos primeiro o quadrado de π\pi, e em seguida tomemos o seno do resultado:

π=3.1415⁢…⟼(⋅)2π2=9,8696⁢…⟼sen⁡(⋅)sen⁡(π2)=−0.4303⁢…\pi=3.1415...\stackrel{{\scriptstyle(\cdot)^{2}}}{{\longmapsto}}\pi^{2}=9,8696% ...\stackrel{{\scriptstyle\operatorname{sen}(\cdot)}}{{\longmapsto}}% \operatorname{sen}(\pi^{2})=-0.4303...

O que foi feito foi compor duas funções.

Sejam ff e gg duas funções reais. Definemos a composição de ff com gg como a nova função f∘gf\circ g definida por

(f∘g)(x):=f(g(x)).\boxed{(f\circ g)(x){:=}f(g(x))\,.}

Isto significa que para calcular x↦(f∘g)(x))x\mapsto(f\circ g)(x)), calculamos primeiro g⁢(x)g(x),

x↦g⁢(x),x\mapsto g(x)\,,

e em seguida aplicamos ff:

x↦g⁢(x)↦f⁢(g⁢(x)).x\mapsto g(x)\mapsto f(g(x))\,.
Exercício 2.21.

Sejam f⁢(x)=x2f(x)=x^{2}, g⁢(x)=1x+1g(x)=\frac{1}{x+1}, h⁢(x)=x+1h(x)=x+1. Calcule

(f∘g)⁢(0),(g∘f)⁢(0),(f∘g)⁢(1),(g∘f)⁢(1),f⁢(g⁢(h⁢(−1))),h⁢(f⁢(g⁢(3))).(f\circ g)(0)\,,(g\circ f)(0)\,,(f\circ g)(1)\,,(g\circ f)(1)\,,f(g(h(-1)))\,,% h(f(g(3)))\,.

Como foi observado no exercício anterior, f∘gf\circ g é em geral diferente de g∘fg\circ f.

Às vezes será necessário considerar uma função complicada como sendo uma composta de funções mais elementares:

Exemplo 2.20.

A função x↦1+x2x\mapsto\sqrt{1+x^{2}} pode ser vista como a composta

x↦1+x2↦1+x2,x\mapsto 1+x^{2}\mapsto\sqrt{1+x^{2}}\,,

que significa que 1+x2=f⁢(g⁢(x))\sqrt{1+x^{2}}=f(g(x)), com g⁢(x)=1+x2g(x)=1+x^{2} e f⁢(x)=xf(x)=\sqrt{x}. Observe que podia também escrever

x↦x2↦1+x2↦1+x2,x\mapsto x^{2}\mapsto 1+x^{2}\mapsto\sqrt{1+x^{2}}\,,

que dá a decomposição 1+x2=f⁢(g⁢(h⁢(x)))\sqrt{1+x^{2}}=f(g(h(x))), onde h⁢(x)=x2h(x)=x^{2}, g⁢(x)=x+1g(x)=x+1, f⁢(x)=xf(x)=\sqrt{x}.

Exercício 2.22.

Para cada função ff a seguir, dê uma decomposição de ff como composição de funções mais simples.

  1. 1.
    ​

    sen⁡(2⁢x)\operatorname{sen}(2x)

  2. 2.
    ​

    1sen⁡x\frac{1}{\operatorname{sen}x}

  3. 3.
    ​

    sen⁡(1x)\operatorname{sen}(\tfrac{1}{x})

  4. 4.
    ​

    1tan⁡(x)\sqrt{\frac{1}{\tan(x)}}

Exercício 2.23.

Considere

f⁢(x):={x+3 se ⁢x≥0,x2 se ⁢x<0,g⁢(x):={2⁢x+1 se ⁢x≥3,x se ⁢x<3.f(x){:=}\begin{cases}x+3&\text{ se }x\geq 0\,,\\ x^{2}&\text{ se }x<0\,,\end{cases}\quad\quad g(x){:=}\begin{cases}2x+1&\text{ % se }x\geq 3\,,\\ x&\text{ se }x<3\,.\end{cases}

Calcule f∘gf\circ g e g∘fg\circ f.

Lembramos que uma função é sempre definida junto com o seu domínio:

f:D\displaystyle f:D →ℝ\displaystyle\to\mathbb{R}
x\displaystyle x ↦f⁢(x).\displaystyle\mapsto f(x)\,.

Em “f:D→ℝf:D\to\mathbb{R}”, o “ℝ\mathbb{R}” foi colocado para indicar que qualquer que seja xx, f⁢(x)f(x) é sempre um número real. Em outras palavas: a imagem de qualquer x∈Dx\in D por ff é um número real. Vejamos em alguns exemplos que esse conjunto “ℝ\mathbb{R}” pode ser mudado por um conjunto que represente melhor a função.

Exemplo 2.21.

Considere

f:ℝ\displaystyle f:\mathbb{R} →ℝ\displaystyle\to\mathbb{R}
x\displaystyle x ↦x2.\displaystyle\mapsto x^{2}\,.

Como x2≥0x^{2}\geq 0 qualquer que seja x∈ℝx\in\mathbb{R}, vemos que a imagem de qualquer x∈ℝx\in\mathbb{R} por ff é positiva. Logo, podemos rescrever a função da seguinte maneira:

f:ℝ\displaystyle f:\mathbb{R} →[0,∞)\displaystyle\to[0,\infty)
x\displaystyle x ↦x2.\displaystyle\mapsto x^{2}\,.

Quando uma função for escrita na forma

f:D\displaystyle f:D →C\displaystyle\to C
x\displaystyle x ↦f⁢(x),\displaystyle\mapsto f(x)\,,

para indicar que qualquer xx em DD tem a sua imagem em CC, diremos que um contradomínio foi escolhido para ff. Em geral, não existe uma escolha única para o contradomínio.

Exemplo 2.22.

Como, x↦sen⁡xx\mapsto\operatorname{sen}x é uma função limitada, podemos escrever

sen:ℝ\displaystyle\operatorname{sen}:\mathbb{R} →[−10,+10]\displaystyle\to[-10,+10] (2.2)
x\displaystyle x ↦sen⁡x.\displaystyle\mapsto\operatorname{sen}x\,.

Mas podemos também escolher um contradomínio menor:

sen:ℝ\displaystyle\operatorname{sen}:\mathbb{R} →[−1,+1]\displaystyle\to[-1,+1] (2.3)
x\displaystyle x ↦sen⁡x.\displaystyle\mapsto\operatorname{sen}x\,.

Acontece que [−1,+1][-1,+1] é o menor contradomínio possível (ver abaixo).

Seja f:D→Cf:D\to C. Para cada x∈Dx\in D, lembremos que f⁢(x)∈Cf(x)\in C é chamado de imagem de xx, e o conjunto imagem de ff é definido como

Im(f):={f(x):x∈D}.\boxed{\operatorname{Im}(f){:=}\{f(x):x\in D\}\,.}

Por definição, Im⁡(f)⊂C\operatorname{Im}(f)\subset C é um contradomínio, e é também o menor possível. Para cada y∈Im⁡(f)y\in\operatorname{Im}(f), existe pelo menos um x∈Dx\in D tal que f⁢(x)=yf(x)=y, cada xx com essa propriedade é chamado de preimagem de yy. Cada ponto x∈Dx\in D possui uma única imagem em CC, um y∈Cy\in C pode possuir uma preimagem, mais de uma preimagem, ou nenhuma preimagem.

Exemplo 2.23.

Considere a função seno na reta. Ao xx percorrer a reta real, sen⁡x\operatorname{sen}x atinge todos os pontos do intervalo [−1,1][-1,1]. Logo, Im⁡(sen)=[−1,1]\operatorname{Im}(\operatorname{sen})=[-1,1]. Qualquer y∈[−1,1]y\in[-1,1] possui infinitas preimagens, por exemplo, todos os pontos de {k⁢π,k∈ℤ}\{k\pi,k\in\mathbb{Z}\} são preimagens de y=0y=0. O ponto y=2y=2, por sua vez, não possui nenhuma preimagem (não existe x∈ℝx\in\mathbb{R} tal que sen⁡x=2\operatorname{sen}x=2).

Exercício 2.24.

Calcule o conjunto imagem das seguintes funções:

  1. 1.
    ​

    −2⁢x+1-2x+1, D=ℝD=\mathbb{R}

  2. 2.
    ​

    −2⁢x+1-2x+1, D=[−1,1]D=[-1,1]

  3. 3.
    ​

    xpx^{p} (pp ímpar)

  4. 4.
    ​

    xpx^{p} (pp par)

  5. 5.
    ​

    1x\tfrac{1}{x}, D=ℝ∖{0}D=\mathbb{R}\setminus\{0\}

  6. 6.
    ​

    1x\tfrac{1}{x}, D=(0,∞)D=(0,\infty)

  7. 7.
    ​

    x2+1x^{2}+1, D=ℝD=\mathbb{R}

  8. 8.
    ​

    1−x21-x^{2}, D=ℝD=\mathbb{R}

  9. 9.
    ​

    x2+2⁢xx^{2}+2x, D=(−∞⁢,0)D=(-\infty,0)

  10. 10.
    ​

    tan⁡x\tan x,

  11. 11.
    ​

    sen⁡x\operatorname{sen}x, D=[−π2,π2]D=[-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}]

  12. 12.
    ​

    cos⁡x\cos x, D=(−π2,π2)D=(-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2})

  13. 13.
    ​

    13⁢sen⁡x\tfrac{1}{3}\operatorname{sen}x, D=ℝD=\mathbb{R}

  14. 14.
    ​

    sen⁡(π4⁢sen⁡x)\operatorname{sen}(\tfrac{\pi}{4}\operatorname{sen}x), D=ℝD=\mathbb{R}

  15. 15.
    ​

    1x2+1\frac{1}{x^{2}+1}, D=ℝD=\mathbb{R}

  16. 16.
    ​

    {x+1 se ⁢x≥012⁢(x−1) se ⁢x<0\begin{cases}x+1&\text{ se }x\geq 0\\ \tfrac{1}{2}(x-1)&\text{ se }x<0\end{cases}

Faça a mesma coisa com as funções do Exercício (2.4).

Exercício 2.25.

Se f⁢(x)=2⁢xx2+25f(x)=\frac{2x}{x^{2}+25}, calcule Im⁡(f)\operatorname{Im}(f). Para cada y∈Im⁡(f)y\in\operatorname{Im}(f), determine se yy possui uma única preimagem ou mais.

2.4.1 Bijeção, função inversa

Diremos que uma função f:D→Cf:D\to C é bijetiva (ou simplesmente: ff é uma bijeção) se

  1. 1.
    ​

    Im⁡(f)=C\operatorname{Im}(f)=C (isto é, se ff atinge cada ponto do seu contradomínio), e se

  2. 2.
    ​

    qualquer y∈Cy\in C possui uma única preimagem, i.e. existe um único x∈Dx\in D tal que

    f⁢(x)=y.f(x)=y\,. (2.4)

Quando uma função é bijetiva, é possivel definir a sua função inversa, f−1:C→Df^{-1}:C\to D, onde para todo y∈Cy\in C, f−1⁢(y)f^{-1}(y) é definido como a única solução xx de (2.4). A função inversa tem as seguintes propriedades:

∀x∈D,(f−1∘f)(x)=x, e ∀y∈C,(f∘f−1)(y)=y.\boxed{\forall x\in D,\,(f^{-1}\circ f)(x)=x\,,\quad\text{ e }\forall y\in C,% \,(f\circ f^{-1})(y)=y\,.}
Exemplo 2.24.

Considere a função do Exemplo 2.8: f⁢(x)=x2+1f(x)=\tfrac{x}{2}+1 com D=[0,2)D=[0,2). Então Im(f)=[1,2)\operatorname{Im}(f)=[1,2), e f:[0,2)→[1,2)f:[0,2)\to[1,2) é uma bijeção:

Como y=x2+1y=\tfrac{x}{2}+1, a função inversa obtém-se isolando xx: x=2⁢(y−1)x=2(y-1). Logo, f−1:[1,2)→[0,2)f^{-1}:[1,2)\to[0,2), f−1⁢(y)=2⁢(y−1)f^{-1}(y)=2(y-1). Para esboçar o gráfico da função inversa no plano cartesiano, é mais natural renomear a variável usada para representar f−1f^{-1}, da seguinte maneira:

f−1:[1,2)\displaystyle f^{-1}:[1,2) →[0,2)\displaystyle\to[0,2)
x\displaystyle x ↦2⁢(x−1).\displaystyle\mapsto 2(x-1)\,.

Podemos agora esbocar f−1f^{-1}:

É importante observar que o gráfico da função inversa obtém-se a partir do gráfico de ff por uma simetria através da diagonal do primeiro quadrante:

Vimos no último exemplo que o gráfico de f−1f^{-1} é obtido a partir do gráfico de ff por uma simetria através da diagonal do primeiro quadrante. Isso vale em geral. De fato, se um ponto (x,y=f⁢(x))(x,y=f(x)) pertence ao gráfico de ff, então (y,x=f−1⁢(y))(y,x=f^{-1}(y)) pertence ao gráfico de f−1f^{-1}.

Exemplo 2.25.

Considere f⁢(x)=1−x2f(x)=1-x^{2}.

1) Com D=[−1,1]D=[-1,1], temos Im⁡(f)=[0,1]\operatorname{Im}(f)=[0,1]. Mas como 1−(−x)2=1−x21-(-x)^{2}=1-x^{2}, cada ponto do contradomínio (diferente de zero) possui exatamente duas preimagens, logo f:[−1,1]→[0,1]f:[-1,1]\to[0,1] não é bijetiva. 2) Mas, ao restringir o domínio, D=[0,1]D=[0,1], então f:[0,1]→[0,1]f:[0,1]\to[0,1], ff se torna bijetiva. O seu inverso se acha resolvendo y=1−x2y=1-x^{2}: x=1−yx=\sqrt{1-y}. Assim, a sua função inversa é dada por f−1:[0,1]→[0,1]f^{-1}:[0,1]\to[0,1], f−1⁢(y)=1−yf^{-1}(y)=\sqrt{1-y}.

Exercício 2.26.

Mostre que a função

f:(−1,0)\displaystyle f:(-1,0) →(0,1)\displaystyle\to(0,1)
x\displaystyle x ↦1−x2\displaystyle\mapsto\sqrt{1-x^{2}}

é bijetiva, e calcule f−1f^{-1}. Esboce o gráfico de f−1f^{-1}.

Exercício 2.27.

Considere f:(−1,∞)→ℝf:(-1,\infty)\to\mathbb{R}, f⁢(x)=1x+1f(x)=\frac{1}{x+1}. A partir do gráfico de ff, dê o seu conjunto imagem, e mostre que f:(−1,∞)→Im⁡(f)f:(-1,\infty)\to\operatorname{Im}(f) é uma bijeção. Em seguida, dê a sua função inversa.

Exercício 2.28.

Seja f:ℝ→ℝf:\mathbb{R}\to\mathbb{R} uma bijeção ímpar. Mostre que a sua função inversa f−1:ℝ→ℝf^{-1}:\mathbb{R}\to\mathbb{R} é ímpar também.

Exercício 2.29.

Para cada um dos contradomínios CC a seguir, dê um exemplo explícito de bijeção f:(0,1)→Cf:(0,1)\to C.

  1. 1.
    ​

    (0,b)(0,b), onde b>0b>0.

  2. 2.
    ​

    (a,b)(a,b), onde a<ba<b.

  3. 3.
    ​

    (0,∞)(0,\infty)

  4. 4.
    ​

    (−∞,∞)(-\infty,\infty)

  5. 5.
    ​

    (0,1)(0,1)

Exercício 2.30.

Sejam f⁢(x)f(x) e g⁢(x)g(x), x∈ℝx\in\mathbb{R}, definidas por

f⁢(x):=⌊x⌋+(x−⌊x⌋)2,g⁢(x):=⌊x⌋+x−⌊x⌋.f(x){:=}\lfloor x\rfloor+(x-\lfloor x\rfloor)^{2}\,,\quad g(x){:=}\lfloor x% \rfloor+\sqrt{x-\lfloor x\rfloor}\,.

Mostre que g=f−1g=f^{-1}.

2.4.2 Inversos das potências

Vimos que se pp é par, então a função f⁢(x)=xpf(x)=x^{p} é par, e Im⁡(f)=[0,∞)\operatorname{Im}(f)=[0,\infty) ou (0,∞)(0,\infty) (dependendo de pp ser >0>0 ou <0<0). Logo, para serem invertidas, o domínio delas precisa ser restringido. Escolheremos (para pp par)

f:[0,∞)\displaystyle f:[0,\infty) →[0,∞)\displaystyle\to[0,\infty)
x\displaystyle x ↦xp.\displaystyle\mapsto x^{p}\,.

Vemos que com essa restrição, ff se torna bijetiva: para cada y∈[0,∞)y\in[0,\infty) existe um único x∈[0,∞)x\in[0,\infty) tal que xp=yx^{p}=y. Esse xx costuma ser denotado por x=y1/px=y^{1/p}:

f−1:[0,∞)\displaystyle f^{-1}:[0,\infty) →[0,∞)\displaystyle\to[0,\infty)
y\displaystyle y ↦y1/p.\displaystyle\mapsto y^{1/p}\,.

No caso p=2p=2, y1/2=yy^{1/2}=\sqrt{y} é a função raiz quadrada.

Se p>0p>0 for ímpar, Im⁡(f)=ℝ\operatorname{Im}(f)=\mathbb{R} e não é preciso restringir o seu domínio:

f:ℝ\displaystyle f:\mathbb{R} →ℝ\displaystyle\to\mathbb{R}
x\displaystyle x ↦xp\displaystyle\mapsto x^{p}

é bijetiva, e o seu inverso tem o seguinte gráfico:

Exercício 2.31.

Complete essa discussão, incluindo os valores negativos de pp.

Exercício 2.32.

Resolva:

  1. 1.
    ​

    x>x+2x>\sqrt{x+2}

  2. 2.
    ​

    (x−1)2≤1−x(x-1)^{2}\leq\sqrt{1-x}

  3. 3.
    ​

    −x2−x+6=−(x+1)\sqrt{-x^{2}-x+6}=-(x+1)

2.4.3 Funções trigonométricas inversas

Vimos que para a função sen:ℝ→[−1,1]\operatorname{sen}:\mathbb{R}\to[-1,1], um y∈[−1,1]y\in[-1,1] possui infinitas preimagens, logo não é bijeção. Portanto, para inverter a função seno, é necessário restringir o seu domínio. A restringiremos ao intervalo [−π2,π2][-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}]:

De fato, com essa restrição,

sen:[−π2,π2]\displaystyle\operatorname{sen}:[-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}] →[−1,1]\displaystyle\to[-1,1]
x\displaystyle x ↦sen⁡x\displaystyle\mapsto\operatorname{sen}x

é uma bijeção, pois cada y∈[−1,1]y\in[-1,1] é atingido e possui uma única preimagem. A função inversa é chamada arcseno, e denotada

arcsen:[−1,1]\displaystyle\operatorname{arcsen}:[-1,1] →[−π2,π2]\displaystyle\to[-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}]
y\displaystyle y ↦arcsen⁡y.\displaystyle\mapsto\operatorname{arcsen}y\,.

Pela sua definição, ela satisfaz:

∀y∈[−1,1]:sen(arcseny)=y, e ∀x∈[−π2,π2]:arcsen(senx)=x.\boxed{\forall y\in[-1,1]:\,\operatorname{sen}(\operatorname{arcsen}y)=y\,\,,% \quad\text{ e }\quad\forall x\in[-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}]:\,% \operatorname{arcsen}(\operatorname{sen}x)=x\,\,.} (2.5)

O gráfico de arcsen\operatorname{arcsen} pode ser obtido por uma reflexão do gráfico de sen\operatorname{sen} pela diagonal do primeiro quadrante:

Observação 2.2.

(Já fizemos esse comentário no Exemplo 2.24.) Como arcsen\operatorname{arcsen} é definida como a função inversa de x↦sen⁡xx\mapsto\operatorname{sen}x (no intervalo [−π2,π2][-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}]), o mais correto é escrevê-la y↦arcsen⁡yy\mapsto\operatorname{arcsen}y. Mas para esboçar o seu gráfico, faz mais sentido usar a notação habitual, em que o eixo das abscissas é chamado de “xx”. Por isso, esse último gráfico representa o gráfico da função arcsen\operatorname{arcsen}, mas chamando a sua variável xx (em vez de yy): x↦arcsen⁡xx\mapsto\operatorname{arcsen}x. Faremos a mesma modificação nos próximos gráficos.

Exercício 2.33.

Seja y∈(0,π2)y\in(0,\tfrac{\pi}{2}) tal que y=arcsen⁡35y=\operatorname{arcsen}\tfrac{3}{5}. Calcule sen⁡y\operatorname{sen}y, cos⁡y\cos y, e tan⁡y\tan y.

O cosseno pode ser invertido também, uma vez que o seu domínio é bem escolhido:

cos:[0,π]\displaystyle\cos:[0,\pi] →[−1,1]\displaystyle\to[-1,1]
x\displaystyle x ↦cos⁡x\displaystyle\mapsto\cos x

A função inversa é chamada arcosseno, e denotada

arcos:[−1,1]\displaystyle\operatorname{arcos}:[-1,1] →[0,π]\displaystyle\to[0,\pi]
y\displaystyle y ↦arcos⁡y.\displaystyle\mapsto\operatorname{arcos}y\,.

Ela possui as propriedades:

∀y∈[−1,1]:cos(arcosy)=y, e ∀x∈[0,π]:arcos(cosx)=x.\boxed{\forall y\in[-1,1]:\,\cos(\operatorname{arcos}y)=y\,\,,\quad\text{ e }% \quad\forall x\in[0,\pi]:\,\operatorname{arcos}(\cos x)=x\,\,.} (2.6)

O gráfico de arcos\operatorname{arcos} pode ser obtido por uma reflexão pela diagonal do primeiro quadrante:

Para inverter a tangente, faremos a restrição

tan:(−π2,π2)\displaystyle\tan:(-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}) →ℝ\displaystyle\to\mathbb{R}
x\displaystyle x ↦tan⁡x,\displaystyle\mapsto\tan x\,,

obtendo assim uma bijeção.

A função inversa é chamada de arctangente:

arctan:ℝ\displaystyle\arctan:\mathbb{R} →(−π2,π2)\displaystyle\to(-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2})
y\displaystyle y ↦arctan⁡y.\displaystyle\mapsto\arctan y\,.

Como antes,

∀x∈(−π2,π2):arctan(tanx)=x, e ∀y∈ℝ:tan(arctany)=y.\boxed{\forall x\in(-\tfrac{\pi}{2},\tfrac{\pi}{2}):\,\arctan(\tan x)=x\,\,,% \quad\text{ e }\quad\forall y\in\mathbb{R}:\,\tan(\arctan y)=y\,\,.} (2.7)

O seu gráfico possui duas assíntotas horizontais: quando xx é positivo e grande, o gráfico de arctan⁡x\arctan x se aproxima da reta de equação y=π2y=\tfrac{\pi}{2}, e quando xx é negativo e grande, ele se aproxima da reta de equação y=−π2y=-\tfrac{\pi}{2}:

Observemos também que arctan\arctan é uma função ímpar, limitada por π2\tfrac{\pi}{2}.

Observação 2.3.

É importante notar que as três funções trigonométricas inversas, arcsen\operatorname{arcsen} arcos\operatorname{arcos} e arctan\arctan, foram definidas a partir de uma escolha de uma restrição para cada uma das funções sen\operatorname{sen}, cos\cos e tan\tan. Essa escolha pode parecer arbitrária, mas é a mais comum usada nos livros de matemática. Continuaremos usando as funções inversas assim definidas, até o fim do curso.

Exercício 2.34.

Determine os domínios das seguintes funções.

  1. 1.
    ​

    arcos⁡x−arcsen⁡x\operatorname{arcos}x-\operatorname{arcsen}x

  2. 2.
    ​

    arcos⁡(2⁢x)\operatorname{arcos}(2x)

  3. 3.
    ​

    tan⁡(arcsen⁡x)\tan(\operatorname{arcsen}x)

  4. 4.
    ​

    arcos⁡(2−x21+x2)\operatorname{arcos}(\tfrac{2-x^{2}}{1+x^{2}})

Exercício 2.35.

Uma tela de cinema de 55 metros de altura está pregada numa parede, 33 metros acima do chão. a) Se PP é um ponto no chão a distância xx da parede, calcule o ângulo θ\theta sob o qual PP vê a tela, em função de xx. b) Mesma coisa se PP é a 22 metros do chão. (Obs: no Exercício 7.15 calcularemos onde colocar o ponto PP de modo tal que o ângulo seja máximo.)

Exercício 2.36.

Resolva:

  1. 1.
    ​

    3⁢arcsen⁡x=π23\operatorname{arcsen}x=\tfrac{\pi}{2}

  2. 2.
    ​

    arctan⁡(x−1)=π3\arctan(x-1)=\tfrac{\pi}{3}

  3. 3.
    ​

    2⁢sen⁡(arcsen⁡x)=132\operatorname{sen}(\operatorname{arcsen}x)=\tfrac{1}{3}

  4. 4.
    ​

    arctan⁡(tan⁡(x2))=π9\arctan(\tan(x^{2}))=\tfrac{\pi}{9}

As funções trigonométricas inversas têm identidades associadas. Somente consideraremos algumas:

Exemplo 2.26.

Provemos, por exemplo, a identidade

cos⁡(arcsen⁡x)=1−x2,∀x∈[−1,1].\cos(\operatorname{arcsen}x)=\sqrt{1-x^{2}}\,,\quad\forall x\in[-1,1]\,. (2.8)

Primeiro, como sen2⁡α+cos2⁡α=1\operatorname{sen}^{2}\alpha+\cos^{2}\alpha=1, temos, usando (2.6),

cos2⁡(arcsen⁡x)=1−sen2⁡(arcsen⁡x)=1−x2.\cos^{2}(\operatorname{arcsen}x)=1-\operatorname{sen}^{2}(\operatorname{arcsen% }x)=1-x^{2}\,.

Mas como −π2≤arcsen⁡x≤π2-\tfrac{\pi}{2}\leq\operatorname{arcsen}x\leq\tfrac{\pi}{2}, vale cos⁡(arcsen⁡x)∈[0,1]\cos(\operatorname{arcsen}x)\in[0,1], logo, tomando a raiz quadrada dá a idendidade desejada. Um outro jeito de entender a identidade é de escrevê-la como cos⁡(arcsen⁡x)=cos⁡α\cos(\operatorname{arcsen}x)=\cos\alpha, onde α=arcsen⁡x\alpha=\operatorname{arcsen}x. Logo, sen⁡α=x\operatorname{sen}\alpha=x, o que pode ser representado num triângulo:

Nesse triângulo vemos que cos⁡α=1−x21=1−x2\cos\alpha=\tfrac{\sqrt{1-x^{2}}}{1}=\sqrt{1-x^{2}}.

Exercício 2.37.

Simplifique:

  1. 1.
    ​

    cos⁡(2⁢arcos⁡x)\cos(2\operatorname{arcos}x)

  2. 2.
    ​

    cos⁡(2⁢arcsin⁡x)\cos(2\arcsin x)

  3. 3.
    ​

    sen⁡(2⁢arcos⁡x)\operatorname{sen}(2\operatorname{arcos}x)

  4. 4.
    ​

    cos⁡(2⁢arctan⁡x)\cos(2\arctan x)

  5. 5.
    ​

    sen⁡(2⁢arctan⁡x)\operatorname{sen}(2\arctan x)

  6. 6.
    ​

    tan⁡(2⁢arcsen⁡x)\tan(2\operatorname{arcsen}x)

Exercício 2.38.

Mostre que para todo x∈[−1,1]x\in[-1,1],

arcsen⁡x+arcos⁡x=π2.\operatorname{arcsen}x+\operatorname{arcos}x=\tfrac{\pi}{2}\,.