7.5 A Lei de Snell

Considere uma partícula que evolui na interface entre dois ambientes, 11 e 22 (veja a figura abaixo). Suponhamos que num ambiente dado, a partícula anda sempre em linha reta e que a partícula evolui no ambiente 11 com uma velocidade constante v1v_{1} e no ambiente 22 com uma velocidade constante v2v_{2}. Suponhamos também que a partícula queira viajar de um ponto AA no ambiente 11 para um ponto BB no ambiente 22; qual estratégia a partícula deve adotar para minimizar o seu tempo de viagem entre AA e BB?

É claro que se v1=v2v_{1}=v_{2}, a partícula não precisa se preocupar com a interface, e pode andar em linha reta de AA até BB. Mas se porventura v1<v2v_{1}<v_{2}, a partícula precisa escolher um ponto CC na interface entre 11 e 22, mais perto de AA do que de BB, andar em linha reta de AA até CC, para depois andar em linha reta de CC até BB. O problema é de saber como escolher CC, de maneira tal que o tempo total de viagem seja mínimo. Modelemos a situação da seguinte maneira:

A nossa variável será xx, a distância entre CC e a projeção de AA na horizontal. Quando xx é fixo, a distância de AA até CC é dada por d1=h12+x2d_{1}=\sqrt{h_{1}^{2}+x^{2}}, e a distância de CC até BB é dada por d2=h22+(L−x)2d_{2}=\sqrt{h_{2}^{2}+(L-x)^{2}}. Indo de AA até CC, a partícula percorre a distância d1d_{1} em um tempo t1=d1v1t_{1}=\frac{d_{1}}{v_{1}}, e indo de CC até BB, percorre a distância d2d_{2} em um tempo t2=d2v2t_{2}=\frac{d_{2}}{v_{2}}. Logo, o tempo total de viagem de AA até BB é de T=t1+t2T=t_{1}+t_{2}. Indicando explicitamente a dependência em xx,

T⁢(x)=h12+x2v1+h22+(L−x)2v2.T(x)=\frac{\sqrt{h_{1}^{2}+x^{2}}}{v_{1}}+\frac{\sqrt{h_{2}^{2}+(L-x)^{2}}}{v_% {2}}\,.

Assim, o nosso objetivo é achar o mínimo global da função T⁢(x)T(x), para x∈[0,L]x\in[0,L]. Comecemos procurando os pontos críticos de TT em (0,L)(0,L), isto é, os x∗x_{*} tais que T′⁢(x∗)=0T^{\prime}(x_{*})=0, isto é,

x∗v1⁢h12+x∗2−L−x∗v2⁢h22+(L−x∗)2=0.\frac{x_{*}}{v_{1}\sqrt{h_{1}^{2}+x_{*}^{2}}}-\frac{L-x_{*}}{v_{2}\sqrt{h_{2}^% {2}+(L-x_{*})^{2}}}=0\,. (7.1)

Essa equação é do quarto grau em x∗x_{*}. Pode ser mostrado que a sua solução existe, é única, e dá o mínimo global de TT em [0,L][0,L]. Em vez de buscar o valor exato do x∗x_{*}, daremos uma interpretação geométrica da solução. De fato, observe que em (7.1) aparecem dois quocientes que podem ser interpretados, respectivamente, como os senos dos ângulos entre A⁢CAC e a vertical, e B⁢CBC e a vertical:

x∗h12+x∗2≡sen⁡θ1,L−x∗h22+(L−x∗)2≡sen⁡θ2.\frac{x_{*}}{\sqrt{h_{1}^{2}+x_{*}^{2}}}\equiv\operatorname{sen}\theta_{1}\,,% \quad\frac{L-x_{*}}{\sqrt{h_{2}^{2}+(L-x_{*})^{2}}}\equiv\operatorname{sen}% \theta_{2}\,.

Portanto, vemos que o mínimo de TT é atingido uma vez que os ângulos θ1\theta_{1} e θ2\theta_{2} são tais que

Em ótica, quando um raio de luz passa de ambiente 11 para um ambiente 22, observe-se um desvio ao atravessar a interface; θ1\theta_{1} é chamado o ângulo de incidência, θ2\theta_{2} o ângulo de refração. O ângulo de refração depende das propriedades dos ambientes 11 e 22 via v1v_{1} e v2v_{2}, e a relação acima é chamada a Lei de Snell 22 2 Willebrord Snellius van Royen, Leiden, 1580 - 1626..

No exemplo acima não obtivemos um valor explícito para o x∗x_{*} que minimize o tempo de viagem de AA até BB, mas aprendemos alguma coisa a respeito dos ângulos θ1\theta_{1} e θ2\theta_{2}. Em alguns casos particulares, x∗x_{*} pode ser calculado explicitamente:

Exercício 7.20.

Um ponto AA flutuando a hh metros da praia precisa atingir um ponto BB situado na beirada da água, a LL metros do ponto da praia mais perto de AA. Supondo que AA se move na água com uma velocidade v1v_{1} e na areia com uma velocidade v2>v1v_{2}>v_{1}, elabore uma estratégia para que AA atinja BB o mais rápido possível. E se v1<v2v_{1}<v_{2}?

Exercício 7.21.

Uma partícula parte de um ponto AA para atingir o mais rápido possível um ponto BB situado do outro lado de uma piscina redonda:

Se AA nada com uma velocidade de 2⁢k⁢m/h2km/h e anda com uma velocidade de 4⁢k⁢m/h4km/h, será que é melhor 1) dar a volta toda andando, 2) usar o caminho mais direto, atravessando a piscina nadando, 3) adotar uma outra estratégia?

Exercício 7.22.

Considere a esquina do corredor em formato de L representado na figura abaixo (suponha-se que o corredor é infinitamente extenso nas direções perpendiculares). Qual é o tamanho ℓ\ell da maior vara rígida que pode passar por esse corredor?