4.2 Limites laterais: limx→a±f⁢(x)\lim_{x\to a^{\pm}}f(x)

Na seção anterior estudamos o comportamento de uma função ff longe da origem, x→∞x\to\infty ou x→−∞x\to-\infty. Agora observaremos o comportamento de uma função f⁢(x)f(x) a medida que xx se aproxima de um ponto da reta, que denotaremos por a∈ℝa\in\mathbb{R}.

Como um xx pode estar ou à esquerda de aa (x<ax<a), ou à direita de aa (x>ax>a), começaremos com dois tipos de limites, chamados de laterais: escreveremos x→a+x\to a^{+} (ou x↘ax\searrow a) para indicar que xx se aproxima de aa pela direita, e x→a−x\to a^{-} (ou x↗ax\nearrow a) para indicar que xx se aproxima de aa pela esquerda.

Comecemos com um exemplo bem simples.

Exemplo 4.16.

Considere a função

f⁢(x)=x2+1,f(x)=\frac{x}{2}+1\,,

em uma vizinhança do ponto a=1a=1. Olhemos primeiro os valores de f⁢(x)f(x) quando x↘1x\searrow 1, isto é, quando xx toma valores maiores mas perto de 11:

x=x= 1.51.5 1.11.1 1.011.01 1,00011,0001
f⁢(x)=f(x)= 1.751.75 1.551.55 1.5051.505 1,500051,50005

Vemos que estes valores decrescem, se aproximando de 1.5=321.5=\tfrac{3}{2}. Gostaríamos de escrever

limx↘1f⁢(x)=32.\lim_{x\searrow 1}f(x)=\tfrac{3}{2}\,.

Ao olharmos os valores de f⁢(x)f(x) quando x↗1x\nearrow 1, isto é, quando xx toma valores menores mas perto de 11, vemos que estes crescem para o mesmo valor 32\tfrac{3}{2}:

x=x= 0.50.5 0.90.9 0.990.99 0.99990.9999
f⁢(x)=f(x)= 1.251.25 1.451.45 1.4951.495 1,499951,49995

Gostariamos então de escrever

limx↗1f⁢(x)=32.\lim_{x\nearrow 1}f(x)=\tfrac{3}{2}\,.

Essas propriedades se tornam óbvias olhando para o gráfico, que é uma simples reta:

Para entender um pouco melhor o que está acontecendo, vamos estudar a diferença:

|f⁢(x)−32|=|(x2+1)−32|=12⁢|x−1|.|f(x)-\tfrac{3}{2}|=\bigl{|}(\tfrac{x}{2}+1)-\tfrac{3}{2}\bigr{|}=\tfrac{1}{2}% |x-1|\,.

Assim, vemos que quando xx fica perto de 11, isto é quando a distância |x−1||x-1| é pequena, então a diferença |f⁢(x)−32||f(x)-\tfrac{3}{2}| é pequena também. Poderíamos ser um pouco mais precisos, fixar uma tolerância ϵ>0\epsilon>0 (subentendido pequena) e perguntar: quão próximo de 11 xx precisa estar para garantir que

|f⁢(x)−32|≤ϵ?|f(x)-\tfrac{3}{2}|\leq\epsilon\,\quad?

Como |f⁢(x)−32|=12⁢|x−1||f(x)-\tfrac{3}{2}|=\tfrac{1}{2}|x-1|, vemos que xx precisa satisfazer 12⁢|x−1|≤ϵ\tfrac{1}{2}|x-1|\leq\epsilon, isto é

|x−1|≤2⁢ϵ.|x-1|\leq 2\epsilon\,.

Logo, a resposta à pergunta acima é: a distância menor que 2⁢ϵ2\epsilon.

Na verdade, pode parecer óbvio que a medida que xx se aproxima de 11, a função f⁢(x)=x2+1f(x)=\frac{x}{2}+1 se aproxima de f⁢(1)=12+1=32f(1)=\tfrac{1}{2}+1=\tfrac{3}{2}. Isto é: colocando o valor x=1x=1 na função, a gente já sabe qual será o valor limite. Mas isso funciona porque a função do exemplo é simples o suficiente. Às vezes, teremos que trabalhar mais, como no próximo exemplo.

Exemplo 4.17.

Consideremos agora

f⁢(x)=x3−1x−1,f(x)=\frac{x^{3}-1}{x-1}\,,

também na vizinhança de a=1a=1. Observe que essa função não é definida em 11. Logo, para saber o que acontece quando xx tende a 11, não temos como adivinhar qual será o limite trocando simplesmente xx por 11.

Mas isso não significa que ele não pode ser calculado. Calculemos alguns valores de f⁢(x)f(x), com x↘1x\searrow 1,

x=x= 1.1 1.02 1.002 1.0002
f⁢(x)≃f(x)\simeq 3,3103,310 3,0603,060 3.0063.006 3,0013,001

e quando x↗1x\nearrow 1:

x=x= 0,9 0,99 0.999 0.9999
f⁢(x)≃f(x)\simeq 2,7102,710 2,9702,970 2,9972,997 2,9992,999

Esses números sugerem que

limx→1+f⁢(x)=limx→1−f⁢(x)=3.\lim_{x\to 1^{+}}f(x)=\lim_{x\to 1^{-}}f(x)=3\,.

Não falaremos de tolerância aqui, mas podemos fazer uma conta simples que mostra porque que o limite é 33. De fato, o polinômio x3−1x^{3}-1 possui a raiz x=1x=1, sabemos então que ele pode ser fatorado da seguinte maneira:

x3−1=(x−1)⁢(…).x^{3}-1=(x-1)(\dots)\,.

O fator (…)(\dots) pode ser calculado pela divisão de x3−1x^{3}-1 por x−1x-1, que dá:

x3−1x−1x3−x2x2+x+1x2−1x2−xx−1x−10\begin{array}[]{r|l}x^{3}\phantom{+x^{2}+x}-1&x-1\\ \cline{2-2}\cr x^{3}-x^{2}\phantom{+x+1}&x^{2}+x+1\\ \cline{1-1}\cr\\ x^{2}\phantom{+x}-1\\ x^{2}-x\phantom{-1}\\ \cline{1-1}\cr\\ x-1\\ x-1\\ \cline{1-1}\cr\\ 0\end{array}

Isto mostra que o nosso quociente na verdade pode ser escrito como

x3−1x−1=x2+x+1.\frac{x^{3}-1}{x-1}=x^{2}+x+1\,.

Agora fica claro que se xx tende a 11, não importa de qual lado,

limx→1±x3−1x−1=limx→1±(x2+x+1)=12+1+1=3.\lim_{x\to 1^{\pm}}\frac{x^{3}-1}{x-1}=\lim_{x\to 1^{\pm}}(x^{2}+x+1)=1^{2}+1+% 1=3\,. (4.18)
Observação 4.7.

No exemplo anterior, a função x3−1x−1\frac{x^{3}-1}{x-1} não é definida no ponto a=1a=1, mas em qualquer outro ponto da sua vizinhança, e à medida que xx se aproxima de a=1a=1, o numerador e o denominador ambos tendem a 0. Foi o nosso primeiro exemplo de resolução de uma indeterminação do tipo

`⁢`⁢00⁢".``\frac{0}{0}"\,.
Exercício 4.11.

Calcule limx→1±x4−1x−1\lim_{x\to 1^{\pm}}\frac{x^{4}-1}{x-1}, limx→1±x5−1x−1\lim_{x\to 1^{\pm}}\frac{x^{5}-1}{x-1}, …

Eis agora a definição geral de limite lateral:

Definição 4.4.

Seja a∈ℝa\in\mathbb{R}.

  1. 1.
    ​

    Diz-se que f⁢(x)f(x) tende a ℓ\ell quando xx tende a aa pela direita se para todo ϵ>0\epsilon>0 existe um δ>0\delta>0 tal que se a<x≤a+δa<x\leq a+\delta, então |f⁢(x)−ℓ|≤ϵ|f(x)-\ell|\leq\epsilon. Escreve-se limx→a+f⁢(x)=ℓ\lim_{x\to a^{+}}f(x)=\ell.

  2. 2.
    ​

    Diz-se que f⁢(x)f(x) tende a ℓ\ell quando xx tende a aa pela esquerda se para todo ϵ>0\epsilon>0 existe um δ>0\delta>0 tal que se a−δ≤x<aa-\delta\leq x<a, então |f⁢(x)−ℓ|≤ϵ|f(x)-\ell|\leq\epsilon. Escreve-se limx→a−f⁢(x)=ℓ\lim_{x\to a^{-}}f(x)=\ell.

Exemplo 4.18.

Usando a definição, mostremos que

limx→1x2=1.\lim_{x\to 1}x^{2}=1\,.

Observe primeiro que |x2−1|=|x+1|⋅|x−1||x^{2}-1|=|x+1|\cdot|x-1|. Quando x>1x>1 fica perto de 11, digamos a distância menor que 12\tfrac{1}{2}, temos |x−1|=x−1|x-1|=x-1, e |x+1|=x+1≤52|x+1|=x+1\leq\tfrac{5}{2}. Quando xx tende a 11, |x−1||x-1| tende a 0. Seja agora ϵ>0\epsilon>0. Para garantir que |x2−1|≤ϵ|x^{2}-1|\leq\epsilon, podemos escrever primeiro |x2−1|≤52⁢(x−1)|x^{2}-1|\leq\tfrac{5}{2}(x-1), e procurar primeiro resolver 52⁢(x−1)≤ϵ\tfrac{5}{2}(x-1)\leq\epsilon, que dá x≤1+25⁢ϵx\leq 1+\tfrac{2}{5}\epsilon. Assim, mostramos que se 1<x≤1+δ1<x\leq 1+\delta, com δ:=2⁢ϵ5\delta{:=}\frac{2\epsilon}{5}, teremos |x2−1|=|x+1|⋅|x−1|≤32⁢(x−1)≤32⁢δ=ϵ|x^{2}-1|=|x+1|\cdot|x-1|\leq\tfrac{3}{2}(x-1)\leq\tfrac{3}{2}\delta=\epsilon.

Foi usado implicitamente em (4.18) que se cada termo de uma soma possui limite, então a soma possui limite também, e este vale a soma dos limites; segue do seguinte resultado, que é o análogo da Proposição 4.1:

Proposição 4.3.

Suponha que duas funções, ff e gg, possuam limites quando x→a+x\to a^{+}:

limx→a+f⁢(x)=ℓ1,limx→a+g⁢(x)=ℓ2,\lim_{x\to a^{+}}f(x)=\ell_{1}\,,\quad\lim_{x\to a^{+}}g(x)=\ell_{2}\,,

onde ℓ1\ell_{1} e ℓ2\ell_{2} são ambos finitos. Então

limx→a+{f⁢(x)+g⁢(x)}=limx→a+f⁢(x)+limx→a+g⁢(x)=ℓ1+ℓ2,\displaystyle\lim_{x\to a^{+}}\{f(x)+g(x)\}=\lim_{x\to a^{+}}f(x)+\lim_{x\to a% ^{+}}g(x)=\ell_{1}+\ell_{2}\,, (4.19)
limx→a+f⁢(x)⁢g⁢(x)=(limx→a+f⁢(x))⋅(limx→a+g⁢(x))=ℓ1⋅ℓ2.\displaystyle\lim_{x\to a^{+}}f(x)g(x)=\bigl{(}\lim_{x\to a^{+}}f(x)\bigr{)}% \cdot\bigl{(}\lim_{x\to a^{+}}g(x)\bigr{)}=\ell_{1}\cdot\ell_{2}\,. (4.20)

Além disso, se ℓ2≠0\ell_{2}\neq 0, então

limx→a+f⁢(x)g⁢(x)=limx→a+f⁢(x)limx→a+g⁢(x)=ℓ1ℓ2.\lim_{x\to a^{+}}\frac{f(x)}{g(x)}=\frac{\lim_{x\to a^{+}}f(x)}{\lim_{x\to a^{% +}}g(x)}=\frac{\ell_{1}}{\ell_{2}}\,. (4.21)

As mesmas propriedades valem no caso x→a−x\to a^{-}.

Nos exemplos anteriores, os limites laterais x→a+x\to a^{+} e x→a−x\to a^{-} eram iguais. Vejamos um exemplo onde eles são diferentes.

Exemplo 4.19.

Considere f⁢(x)=x3+x2⁢|x|f(x)=\tfrac{x}{3}+\frac{x}{2|x|} na vizinhança de a=0a=0 (em que ela nem é definida). Usando a definição de |x||x|, podemos reescrever ff da seguinte maneira:

f⁢(x)={x3+12 se ⁢x>0,x3−12 se ⁢x<0.f(x)=\begin{cases}\tfrac{x}{3}+\tfrac{1}{2}&\text{ se }x>0\,,\\ \tfrac{x}{3}-\tfrac{1}{2}&\text{ se }x<0\,.\\ \end{cases}

Logo,

limx→0+f⁢(x)=limx→0+{x3+12}=+12, e limx→0−f⁢(x)=limx→0−{x3−12}=−12.\lim_{x\to 0^{+}}f(x)=\lim_{x\to 0^{+}}\bigl{\{}\tfrac{x}{3}+\tfrac{1}{2}\bigr% {\}}=+\tfrac{1}{2}\,,\quad\quad\text{ e }\quad\quad\lim_{x\to 0^{-}}f(x)=\lim_% {x\to 0^{-}}\bigl{\{}\tfrac{x}{3}-\tfrac{1}{2}\bigr{\}}=-\tfrac{1}{2}\,.

Isso significa que o gráfico de f⁢(x)f(x), ao xx crescer de <0<0 para >0>0 e atravessar 0, dá um pulo de valores pertos de −12-\tfrac{1}{2} para valores perto de +12+\tfrac{1}{2}. Diz-se que essa função é descontínua em x=0x=0:

Exercício 4.12.

Seja

f⁢(x):={5−x se ⁢x≥2x2 se ⁢x<2.f(x){:=}\begin{cases}5-x&\text{ se }x\geq 2\\ \frac{x}{2}&\text{ se }x<2\,.\end{cases}

Calcule os limites laterais limx→a±f⁢(x)\lim_{x\to a^{\pm}}f(x) para a=0a=0, a=2a=2, a=5a=5.

Às vezes, limites laterais não existem:

Exemplo 4.20.

Por exemplo, o limite lateral x→0+x\to 0^{+} da função sen⁡1x\operatorname{sen}\tfrac{1}{x} (que obviamente não é definida em x=0x=0) não existe:

Observe, no entanto, que limx→∞sen⁡1x=0\lim_{x\to\infty}\operatorname{sen}\tfrac{1}{x}=0.

Exercício 4.13.

Considere a função definida por

f⁢(x)={+1 se x é racional diádico,0 caso contrário.f(x)=\begin{cases}+1&\text{ se $x$ \'{e} racional di\'{a}dico}\,,\\ 0&\text{ caso contr\'{a}rio}.\end{cases}

Estude os limites laterais de f⁢(x)f(x) num ponto qualquer aa.

Exercício 4.14.

Seja f⁢(x):=⌊x⌋f(x){:=}\lfloor x\rfloor. Calcule limx→12+f⁢(x)\lim_{x\to\frac{1}{2}^{+}}f(x), limx→12−f⁢(x)\lim_{x\to\frac{1}{2}^{-}}f(x), limx→13+f⁢(x)\lim_{x\to\frac{1}{3}^{+}}f(x), limx→13−f⁢(x)\lim_{x\to\frac{1}{3}^{-}}f(x). Calcule limx→1+f⁢(x)\lim_{x\to 1^{+}}f(x), limx→1−f⁢(x)\lim_{x\to 1^{-}}f(x). Calcule, para qualquer número inteiro nn, limx→n+f⁢(x)\lim_{x\to n^{+}}f(x), limx→n−f⁢(x)\lim_{x\to n^{-}}f(x).