6.3 A derivada como função

Exemplo 6.6.

Será que existe um ponto PP da parábola f⁢(x)=x2f(x)=x^{2} em que a reta tangente tem inclinação igual a 29752975?

O que sabemos fazer, até agora, é fixar um ponto, por exemplo a=1a=1, e calcular a inclinação da reta tangente à parábola no ponto (1,f⁢(1))(1,f(1)), que é dada por f′⁢(1)f^{\prime}(1). Para responder à pergunta acima, poderíamos calcular a derivada em vários pontos da reta, um a um, até achar um em que a inclinação à igual a 29752975.

Mas é mais fácil reformular a pergunta acima diretamente em termos da derivada: Será que existe um ponto aa em que

f′⁢(a)=2975?f^{\prime}(a)=2975\quad?

Para isto, é preciso ter a função f′⁢(⋅)f^{\prime}(\cdot), que associa a cada aa a inclinação da reta tangente ao gráfico de ff no ponto (a,f⁢(a))(a,f(a)). Logo, vamos supor que aa é um ponto fixo da reta, sem especificar o seu valor, e calcular

f′⁢(a)=limx→af⁢(x)−f⁢(a)x−a=limx→ax2−a2x−a=limx→a(x−a)⁢(x+a)x−a=limx→a(x+a)=2⁢a.f^{\prime}(a)=\lim_{x\to a}\frac{f(x)-f(a)}{x-a}=\lim_{x\to a}\frac{x^{2}-a^{2% }}{x-a}=\lim_{x\to a}\frac{(x-a)(x+a)}{x-a}=\lim_{x\to a}(x+a)=2a\,.

Agora, a equação que precisamos resolver, f′⁢(a)=2975f^{\prime}(a)=2975, é simplesmente

2⁢a=2975,⇒a=1487.5.2a=2975\,,\quad\Rightarrow\quad a=1487.5\,.

O ponto procurado é P⁢(1487.5,1487.52)P(1487.5,1487.5^{2}).

O exemplo acima mostrou a utilidade de ver a derivada como uma função a↦f′⁢(a)a\mapsto f^{\prime}(a). Quando se fala em função, é mais natural a escrever usando a letra xx em vez da letra aa:

x↦f′⁢(x).x\mapsto f^{\prime}(x)\,.

Assim, a derivada pode também ser vista como um jeito de definir, a partir de uma função ff, uma outra função f′f^{\prime}, chamada derivada de ff, definida (quando o limite existe) por

f′(x):=limh→0f⁢(x+h)−f⁢(x)h.\boxed{f^{\prime}(x){:=}\lim_{h\to 0}\frac{f(x+h)-f(x)}{h}\,.}

Observe que nessa expressão, hh tende a zero enquanto xx é fixo.

Observação 6.3.

É importante mencionar que o domínio de f′f^{\prime} é em geral menor que o de ff. Por exemplo, |x||x| é bem definida para todo x∈ℝx\in\mathbb{R}, mas vimos que a sua derivada é definida somente quando x≠0x\neq 0.

Exercício 6.11.

Se ff é par (resp. ímpar), derivável, mostre que a sua derivada é ímpar (resp. par).

Exercício 6.12.

Se ff é derivável em aa, calcule o limite limx→aa⁢f⁢(x)−x⁢f⁢(a)x−a\lim_{x\to a}\frac{af(x)-xf(a)}{x-a}

Derivadas serão usadas extensivamente no resto do curso. Nas três próximas seções calcularemos as derivadas de algumas funções fundamentais. Em seguida provaremos as regras de derivação, que permitirão calcular a derivada de qualquer função a partir das derivadas das funções fundamentais. Em seguida comecaremos a usar derivadas na resolução de problemas concretos.

6.3.1 Derivar as potências inteiras: xpx^{p}

Mostraremos aqui que para as potências inteiras de xx, xpx^{p} com p∈ℤp\in\mathbb{Z},

(xp)′=pxp−1.\boxed{(x^{p})^{\prime}=px^{p-1}\,.} (6.4)

O caso p=2p=2 já foi tratado no Exemplo 6.3 e no Exercício 6.1:

(x2)′=limh→0(x+h)2−x2h=limh→02⁢x⁢h+h2h=limh→0(2⁢x+h)=2⁢x.(x^{2})^{\prime}=\lim_{h\to 0}\frac{(x+h)^{2}-x^{2}}{h}=\lim_{h\to 0}\frac{2xh% +h^{2}}{h}=\lim_{h\to 0}(2x+h)=2x\,.

Na verdade, para xnx^{n} com n∈ℕn\in\mathbb{N} qualquer, já calculamos no Exercício 4.35:

(xn)′=limh→0(x+h)n−xnh=n⁢xn−1.(x^{n})^{\prime}=\lim_{h\to 0}\frac{(x+h)^{n}-x^{n}}{h}=nx^{n-1}\,. (6.5)

Por exemplo, (x4)′=4⁢x3(x^{4})^{\prime}=4x^{3}, (x17)′=17⁢x16(x^{17})^{\prime}=17x^{16}. Daremos uma prova alternativa da fórmula (6.4) no Exercício 6.17 abaixo.

Observação 6.4.

O caso p=0p=0 corresponde a x0=1x^{0}=1. Ora, a derivada de qualquer constante C∈ℝC\in\mathbb{R} é zero (o seu gráfico corresponde a uma reta horizontal, portanto de inclinação =0=0!):

(C)′=0.\boxed{(C)^{\prime}=0\,.}

Para as potências negativas, x−p≡1xqx^{-p}\equiv\frac{1}{x^{q}} obviamente não é derivável em 0, mas se x≠0x\neq 0,

(1xq)′=limh→01(x+h)q−1xqh=limh→0−1(x+h)q⁢xq⁢(x+h)q−xqh=−1xq⁢xq⁢q⁢xq−1=−q⁢x−q−1.\bigl{(}\tfrac{1}{x^{q}}\bigr{)}^{\prime}=\lim_{h\to 0}\frac{\frac{1}{(x+h)^{q% }}-\frac{1}{x^{q}}}{h}=\lim_{h\to 0}\frac{-1}{(x+h)^{q}x^{q}}\frac{(x+h)^{q}-x% ^{q}}{h}=\frac{-1}{x^{q}x^{q}}qx^{q-1}=-qx^{-q-1}\,.

Isso prova (6.4) para qualquer p∈ℤp\in\mathbb{Z}. Veremos adiante que (6.4) vale para qualquer pp, mesmo não inteiro. Por exemplo, (x2)′=2⁢x2−1(x^{\sqrt{2}})^{\prime}=\sqrt{2}x^{\sqrt{2}-1}. Para alguns casos simples, uma conta explícita pode ser feita. Por exemplo, se p=±12p=\pm\frac{1}{2},

Exercício 6.13.

Calcule (x)′(\sqrt{x})^{\prime}, (1x)′(\frac{1}{\sqrt{x}})^{\prime}.

6.3.2 Derivar as funções trigonométricas

A derivada da função seno já foi calculada no Exercício 4.35. Por definição,

(sen)′⁢(x)=limh→0sen⁡(x+h)−sen⁡xh.(\operatorname{sen})^{\prime}(x)=\lim_{h\to 0}\frac{\operatorname{sen}(x+h)-% \operatorname{sen}x}{h}\,.

Usando a fórmula (1.25), sen⁡(x+h)=sen⁡x⁢cos⁡h+sen⁡h⁢cos⁡x\operatorname{sen}(x+h)=\operatorname{sen}x\cos h+\operatorname{sen}h\cos x, obtemos

limh→0sen⁡(x+h)−sen⁡xh\displaystyle\lim_{h\to 0}\frac{\operatorname{sen}(x+h)-\operatorname{sen}x}{h} =limh→0sen⁡x⁢cos⁡h+sen⁡h⁢cos⁡x−sen⁡xh\displaystyle=\lim_{h\to 0}\frac{\operatorname{sen}x\cos h+\operatorname{sen}h% \cos x-\operatorname{sen}x}{h}
=sen⁡x⁢{limh→0cos⁡h−1h}+cos⁡x⁢{limh→0sen⁡hh}.\displaystyle=\operatorname{sen}x\Bigl{\{}\lim_{h\to 0}\frac{\cos h-1}{h}\Bigr% {\}}+\cos x\Bigl{\{}\lim_{h\to 0}\frac{\operatorname{sen}h}{h}\Bigr{\}}\,.

Ora, sabemos que limh→0sen⁡hh=1\lim_{h\to 0}\frac{\operatorname{sen}h}{h}=1, e que limh→0cos⁡h−1h=limh→0h⁢cos⁡h−1h2=0\lim_{h\to 0}\frac{\cos h-1}{h}=\lim_{h\to 0}h\frac{\cos h-1}{h^{2}}=0 (lembre o item (5) do Exercício 4.19). Portanto, provamos que

(sen)′⁢(x)=cos⁡x.\boxed{(\operatorname{sen})^{\prime}(x)=\cos x}\,. (6.6)

Pode ser provado (ver o exercício abaixo) que

(cos)′(x)=−senx.\boxed{(\cos)^{\prime}(x)=-\operatorname{sen}x\,.} (6.7)

Para calcular a derivada da tangente, tan⁡x=sen⁡xcos⁡x\tan x=\frac{\operatorname{sen}x}{\cos x}, precisaremos de uma regra de derivação que será provada na Seção 6.4; obteremos

(tan)′(x)=1+tan2x=1cos2⁡x.\boxed{(\tan)^{\prime}(x)=1+\tan^{2}x=\frac{1}{\cos^{2}x}\,.} (6.8)
Exercício 6.14.

Calcule a equação da reta tangente ao gráfico da função sen⁡x\operatorname{sen}x, nos pontos P1=(0,0)P_{1}=(0,0), P2=(π2⁢,1)P_{2}=(\tfrac{\pi}{2},1), P3=(π⁢,0)P_{3}=(\pi,0). Confere no gráfico.

Exercício 6.15.

Prove (6.7).

6.3.3 Derivar exponenciais e logaritmos

Na Seção 4.7 calculamos

limh→0eh−1h=1,limh→0ln⁡(1+h)h=1.\lim_{h\to 0}\frac{e^{h}-1}{h}=1\,,\quad\quad\lim_{h\to 0}\frac{\ln(1+h)}{h}=1\,. (6.9)

Lembre que esses limites seguem diretamente da definição do número ee, como o limite e:=limn→∞(1+1n)ne{:=}\lim_{n\to\infty}(1+\frac{1}{n})^{n}. Usaremos agora o primeiro desses limites para calcular a derivada de exe^{x}: para x∈ℝx\in\mathbb{R},

(ex)′:=limh→0ex+h−exh=limh→0ex⁢eh−exh=ex⁢{limh→0eh−1h}=ex.(e^{x})^{\prime}{:=}\lim_{h\to 0}\frac{e^{x+h}-e^{x}}{h}=\lim_{h\to 0}\frac{e^% {x}e^{h}-e^{x}}{h}=e^{x}\Bigl{\{}\lim_{h\to 0}\frac{e^{h}-1}{h}\Big{\}}=e^{x}\,.

Portanto, está provado que a função exponencial é igual a sua derivada! Por outro lado, para derivar o logaritmo, observe que para todo x>0x>0, ln⁡(x+h)−ln⁡(x)=ln⁡(x+hx)=ln⁡(1+hx)\ln(x+h)-\ln(x)=\ln(\frac{x+h}{x})=\ln(1+\frac{h}{x}). Logo,

(ln⁡x)′:=limh→0ln⁡(x+h)−ln⁡(x)h=limh→0ln⁡(1+hx)h.(\ln x)^{\prime}{:=}\lim_{h\to 0}\frac{\ln(x+h)-\ln(x)}{h}=\lim_{h\to 0}\frac{% \ln(1+\frac{h}{x})}{h}\,.

Chamando α:=hx\alpha{:=}\frac{h}{x} temos, usando (6.9),

(ln⁡x)′=1x⁢{limα→0ln⁡(1+α)α}=1x.(\ln x)^{\prime}=\tfrac{1}{x}\Bigl{\{}\lim_{\alpha\to 0}\frac{\ln(1+\alpha)}{% \alpha}\Bigr{\}}=\tfrac{1}{x}\,.

Calculamos assim duas derivadas fundamentais:

(ex)′=ex,(lnx)′=1x.\boxed{(e^{x})^{\prime}=e^{x}\,,\quad\quad(\ln x)^{\prime}=\frac{1}{x}\,.}
Observação 6.5.

A interpretação geométrica dos limites em (6.9) é a seguinte: a inclinação da reta tangente ao gráfico de exe^{x} no ponto (0,1)(0,1) e a inclinação da reta tangente ao gráfico de ln⁡x\ln x no ponto (1,0)(1,0) ambas valem 11 (lembre que o gráfico do logaritmo é a reflexão do gráfico da exponencial pela bisetriz do primeiro quadrante):

Uma olhada nos esboços das funções axa^{x} na página LABEL:Fig:graficosdifbases mostra que exe^{x} é a única com essa propriedade. Às vezes, livros definem “ee” como sendo a única base aa que satisfaz a essa propriedade: a inclinação da reta tangente a axa^{x} na origem é igual a 11.